As florações de Natal | Ronaldo Correia de Brito | site oficial
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As florações de Natal

O jardineiro de nossa antiga casa no bairro da Várzea – quando ainda era possível morar em casa – trazia a notícia da floração dos visgueiros, no mês de dezembro.

– Doutor Ronaldo, o senhor precisa ver. O visgueiro de Dona Maria Mac Dowell, lá em Camaragibe, está cheio de flores penduradas nos galhos. Parece enfeite de Natal. Tão lindo, tão lindo…

Era bonito mesmo, embora eu nunca olhasse o visgueiro de Camaragibe, só o da mata do Curado, no caminho para o hospital. Via também as florações e frutificações das mangueiras, cajueiros e sapotizeiros. Os cachos amarelos das cássias, os roxos dos ipês, as flores amarelas das caraibeiras, as brancas e vermelhas dos pés de japão – que os recifenses chamam jasmim vapor –, as florezinhas roxas e brancas das sucupiras, as quase marrons das sapucaias. Tão lindo, tão lindo, diria maravilhado o meu jardineiro da Várzea, quando eu possuía casa e jardim.

Foi ele quem me alertou para as transformações que acontecem na flora, no mês de dezembro, depois das primeiras chuvas.

– Doutor Ronaldo, pra que esse desperdício de dinheiro com enfeite de Natal? A natureza já enfeitou tudo. O senhor não acha?

Acho sim, Paulo Ferreira. E também sinto enjoo com o excesso de lâmpadas, os adornos fabricados na China – talvez por mão de obra escrava –, as orgias de comida, as confraternizações, os presentes, tudo compulsivo, como se as pessoas recebessem uma carga nas suas baterias e não conseguissem parar de fazer compras e decorações.

Meus filhos falam que nasci com uma irremediável vocação à pobreza. Não sei bem se é isso. Gosto da lenda em torno do poeta japonês Bashô, a de que ele possuía apenas um guarda-chuva. Duas pessoas me pareceram felizes, minha avó materna e o mestre Francisco Aniceto, ambos tinham poucos bens. Minha avó, porque escolheu ser modesta, possuía três vestidos apenas. Quando ganhava um novo, doava o mais velho. Chico Aniceto nasceu pobre, mas sempre foi rico de sua arte. Tocava vários instrumentos que ele mesmo confeccionava, compunha, celebrava renovações e interrogava sobre o universo e o espírito. Era analfabeto mas pensava, uma virtude rara nos tempos de hoje. Quando descobri que se tratava de um homem sábio, tomei-o por mestre.

No mês de dezembro, Francisco Aniceto acompanhava os reisados. Minha avó fazia um presépio com bichinhos de lã de ciumeira. Catava conchas no rio Jardim, pintava-as, punha anjinhos, ciganas, pastoras, bois, beija-flores, burrinhos e carneiros em torno do Menino Jesus, de Maria e José, numa mesinha recoberta de areia lavada. Tudo tão simples, mas cheio de significados.

Não acho que nasci com vocação para a pobreza. Vivi em conflito com São Francisco de Assis, o que se proclamava o mais humilde dos humildes. Minha briga com o pobrezinho de Deus era por conta de sua negação do corpo. Não sou um hedonista, mas semelhante ao poeta americano Walt Whitman “tenho dito que a alma não é mais do que o corpo e tenho dito que o corpo não é mais do que a alma, e que nada, nem Deus, para ninguém é mais do que a própria pessoa…”

Talvez por preferir as coisas simples da natureza – embora me exercite nas coisas artificiosas da escrita –, me encante com as florações, o toque de uma banda cabaçal e com um presépio de Juazeiro do Norte cercado de pastorinhas vestidas de rosa e azul claro, entoando loas ingênuas ao Menino Deus. Se eu pudesse, me esconderia todo mês de dezembro num lugar silencioso do planeta, embora eu saiba que existem poucos lugares silenciosos no planeta, quase nenhum imune a essa febre de consumo que transforma o Cristo em produto de vendilhões do seu templo sagrado.

Nesse lugar imaginário eu escutaria o canto dos caboclinhos sobre a encarnação da Virgem Maria, espantado com a maneira dos brincantes populares explicarem os mais intrincados mistérios:

“Passa o sol pela vidraça,
Já passou sem tocar nela
Assim foi a Virgem pura
Levou luz ficou donzela”.

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