A louca do jardim | Ronaldo Correia de Brito | site oficial
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A louca do jardim

Entre os muitos personagens reais que me inspiraram, atiçando minha imaginação, há uma mulher que me aparece com sua história de sofrimento e mistério. Perdi a conta das vezes que escrevi sobre Júlia em contos, romances e crônicas. Abandonada pelo marido, que levou as duas filhas do casamento, durante toda sua vida ela sonhou reaver essa perda. Júlia sabia ler com fluência mas, estranhamente, não escrevia uma letra do alfabeto. Durante anos, mamãe foi escriba de suas cartas lacrimosas para as filhas ausentes. Algumas vezes assumi este lugar e creio que isso foi importante para o aprendizado de escrever ficção.

Ao nome de batismo acrescentaram um substantivo da profissão: Júlia dos Ovos. Era assim que a conheciam, quando ainda tinha forças e coragem para percorrer a pé e descalça os sítios em torno do Crato, comprando ovos e carregando-os num balaio, aprumado na cabeça. Destinavam-se às freguesas, entre as quais se incluía minha mãe.

Em nossa casa, Júlia se alimentava, pedia para escrevermos suas cartas, que lêssemos os cordéis comprados nas feiras e alguns livros de sua preferência. Os mais clássicos eram A casta Suzana, do profeta Daniel, e A louca do jardim, ambos com enredos sobre acusações falsas e testemunhos falsos de adultério feminino.  Histórias com final feliz, onde a vítima era inocentada depois de passar por muitas provas e sofrimentos. Havia mais um livro da preferência de Júlia, que nunca li para ela: O judeu errante.  Mas, perdi a conta de cordéis lidos em voz alta, para a ouvinte atenta e sempre com os olhos embaciados de lágrimas.

Percebi estar diante de uma colecionadora de folhetos, de uma leitora que não sabia escrever, preferindo que os outros fizessem isso para ela. Qual o motivo dessa escolha me perguntava intrigado?

Porém este não era o maior segredo da mulher estranha. As pessoas tinham curiosidade em saber no que Júlia empregava o dinheiro ganho no comércio com os ovos, pois ela se vestia de roupas velhas, herdadas das freguesas, e comia nas casas onde fazia as entregas. Sovina, jamais se viu a cor do seu dinheiro.

Somente depois que morreu. Acharam uma caixa repleta de cédulas, escondidas para as filhas, quando um dia – que nunca chegou – as encontrasse. Corroídas pela inflação, cobertas de mofo, as notas nada valiam. Foram enterradas com a mulher e seu sonho.

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