Os idos de 60 e esse tempo em que nos afogamos | Ronaldo Correia de Brito | site oficial
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Os idos de 60 e esse tempo em que nos afogamos

Quando escrevi o romance Estive lá fora, não achei fácil recompor um tempo distante de mim mais de quarenta anos. O período de Faculdade de Medicina e Hospital Pedro II, no Recife, foram marcados pela repressão e pelo clima sombrio da ditadura militar. Eu acalentava o projeto de escrever o romance há bastante tempo, porém não conseguia recompor a atmosfera pesada que vivi. Os relatos da época, as entrevistas com amigos militantes me pareciam amenizadas, com certa dose de humor, que destoava do sofrimento presenciado. As pessoas pareciam esquecidas daquele período ou desejosas de esquecê-lo. Para alcançar a atmosfera que buscava, tive de ler autores europeus que viveram entre as duas Grande Guerras.

 

Eu desejava contar as histórias que me impressionaram e se tornaram minhas. Uma delas, era o atentado ao jovem estudante de engenharia, Cândido Pinto. Quando vi uma foto de Cândido, na casa de seu irmão, tive o primeiro impulso para escrever. Saí juntando histórias reais e reinventando-as. O meu processo narrativo consiste em inventar a memória. 

O fato do personagem principal do romance, Cirilo, ser um jovem estudante de medicina, à procura do irmão Geraldo, desaparecido na militância de esquerda, termina se misturando às minhas lembranças. Por mais objetivo que seja um autor, por mais distanciado do que narra, seus personagens se impregnam de sua própria biografia. Sem minhas vivências e memórias ele não seria tão real, tão vivo e apaixonante.

 

O mais grave do processo foi quando comecei a sonhar os sonhos de Cirilo. Me levantava da cama angustiado, anotava o que havia sonhado e incorporava ao romance. Estive lá fora conta a história de algumas famílias destruídas pela repressão. Eu precisei localizar fotos, olhava para elas e descrevia. Dessa maneira, consegui montar núcleos familiares e enredos. O personagem Sílvio, amigo de Cirilo, estava atrofiado, não se desenvolvia na trama. Até que encontrei uma foto de uma família formada por um pai, três filhos rapazes, uma mocinha e um menino, em torno da mãe morta dentro de um caixão. O menino tornou-se Sílvio e a partir dessa imagem ele ganhou consistência.

 

Acho que transito melhor pelo conto do que pelo romance. Tenho a fantasia de que os contistas são franzinos, esguios, silenciosos e secos. Habituei-me a esse perfil de contista. Porém o conto, pela sua exatidão e poucas páginas, não comporta as ideias, os ensaios que eu desejava trabalhar. No romance cabe tudo. Passei a escrever romances pela necessidade de expandir-me, de alargar-me nos meus pontos de vista, defender o que penso e gosto, apropriar-me de bens de cultura. Jorge Luis Borges alcança isso nos contos. Mas ele é um gênio, inventou um método único de escrita, que não vale a pena seguir.  Sem aumentar o peso corporal, passei para o romance. O crítico Manuel da Costa Pinto escreveu que Estive lá fora é um romance de ideias. Galileia também. E de pequenos ensaios. Fui massacrado por colocar uma nota no final, referindo as fontes citadas. Eu não queria subestimar a inteligência dos leitores, desejava apenas referir aquilo de que me apropriei, para não ser acusado de plágio.

 

Tornei-me escritor à revelia, pois sempre fui encaminhado à medicina, como uma profissão mais viável para servir aos meus semelhantes. A literatura sempre foi um vício, um hábito de vida que se agravou, tomou conta de mim nos últimos anos. Tento administrar o tempo e a ansiedade. Não é fácil, tapeio. Mas, o tempo é invenção do homem.

 

Creio que sempre irei contar histórias de irmãos. Sofri um trauma antes de nascer: a perda de dois irmãos. Isso marcou minha vida de forma dramática. Vivo procurando por eles, mesmo na literatura.

 

Morei apenas cinco anos e doze dias na fazenda Lajedos, no Saboeiro, sertão dos Inhamuns, onde nasci. Foi bastante. Era um mundo mítico, cheio de histórias e assombros. Hermann Broch enxerga como salvação para o homem pós-moderno que ele não perca a perspectiva do mito. Nunca perco a perspectiva do sertão. Os ingleses chamavam a região de “terras de trás”. O sertão é a minha terra de trás. Estará presente aonde eu for. É o que enxergo quando subo o prédio mais alto da cidade de São Paulo e olho as planuras concretas.

Comecei a publicar seriamente há poucos anos. Andei ligeiro, desde então. Não gosto de me cansar e mantenho as atividades simples como parte do meu projeto de vida. Adoro arrumar casa, armários, fazer arranjos de flores, ir à feira, caminhar, ficar com a família. Para mim, todas essas coisas possuem a mesma ordem de grandeza da literatura. 

 

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