Depoimento do professor Garcilaso | Ronaldo Correia de Brito | site oficial
1806
post-template-default,single,single-post,postid-1806,single-format-standard,ajax_fade,page_not_loaded,,qode-title-hidden,qode_grid_1300,hide_top_bar_on_mobile_header,qode-content-sidebar-responsive,qode-theme-ver-10.1.2,wpb-js-composer js-comp-ver-4.11.2.1,vc_responsive

Depoimento do professor Garcilaso

“Neste recorte editado do romance Dora sem véu, trato de um dos meus temas obsessivos: o desprestígio da arte produzida fora da Europa Central e Estados Unidos. O personagem Garcilaso, professor bem humorado e cáustico, questiona a ‘desqualificação’ regionalista, da mesma maneira que Edward Said questiona a invenção de orientalismo.”

Depoimento do professor Garcilaso

Vivi sempre no Crato. O cariri cearense é o centro do mundo, Juazeiro a matriz da religiosidade e da cultura popular. Aqui existia um oceano cretáceo e se guardaram fósseis muito antigos. Portanto, somos velhos, todo esse passado sobrevive em nós, faz parte de nossa genética. As pessoas do Recife acreditam que o oceano Atlântico se formou pela união do rio Capibaribe com o Beberibe. Eu afirmo que o mundo começou aqui.

Minha segunda casa era um rio, mas não era igual ao Sena, o Danúbio, o Reno, o Mississipi ou o Volga. Cansamos de nos apresentarem esses cursos de água, nos romances e novelas. Eles nem precisam ser descritos, fomos massacrados com tantas informações que parecemos imbecis se desconhecemos a geografia fluvial da Europa ou dos Estados Unidos.

A nenhum francês se pede que conheça o Granjeiro, o riozinho do Crato. Ele deságua no Salgado, o Salgado no Jaguaribe e o Jaguaribe no Atlântico. Até nas aulas de história nos obrigavam a discorrer sobre o Sena, a mencionar os nobres afogados em suas águas, durante a Revolução Francesa. Essas coisas inquietavam o meu juízo e comecei a assumir um comportamento rebelde nas disciplinas curriculares.

Outra descoberta dizia respeito à flora estrangeira. Cansei de ler sobre carvalhos, choupos, salgueiros, sequoias, pinheiros, zimbros, faias, aveleiras, tílias, plátanos, freixos, nogueiras e amieiros. Fazia um esforço sobre-humano para elaborar as imagens, nem sempre havia enciclopédias e revistas de consulta e quando as árvores apareciam nos filmes não havia uma seta indicando: isso é um carvalho.

Nas redações do colégio eu me sentia inseguro em escrever sobre a flora europeia, que tanto impressionava os professores habituados às leituras de Tolstói, Balzac e Maupassant, alheios às nossas espécies nativas, oitizeiros, baraúnas, angicos, muricis, aroeiras, quixabeiras, carnaúbas, juazeiros e gameleiras. Um dia perguntei ao professor de literatura por que era obrigado a conhecer um abeto, e se exigiam de um estudante alemão que memorizasse os nomes da vegetação mirrada da caatinga.

O mestre tinha a resposta pronta. Nossa literatura era regionalista, nossos escritores não preenchiam os cânones universais e por isso éramos tão pouco lidos dentro e fora do país. Citou a entrevista de um escritor peruano, que ganhou o Nobel, onde ele afirmava: “Não seria o escritor que sou, sem os anos que vivi na Europa. Felizmente, a vida me premiou, convertendo-me num cidadão do mundo”. Concluí que foi graças a ter morado na Europa que se tornou um escritor e cidadão do mundo. Mas, não afirmava se os nascidos fora da Europa deixariam de ser cidadãos do mundo, apenas tornava claro que, para ele, um peruano, a cidadania e o livre trânsito pelo mundo se deram porque residia na Europa.

A afirmativa deixou transparecer as dificuldades dos intelectuais da América Latina em relação aos seus países de origem e suas culturas. Não fiquei satisfeito com a resposta do professor e continuei desejando saber o motivo dos marmeleiros, mandacarus e carnaúbas serem regionais e os carvalhos universais.

Enchendo a boca e a papada, nosso arcaico mestre leu um trecho do O Romeiral, de Balzac: “Há uvas de todas as regiões, figos, pêssegos, peras de todas as espécies e melões, assim como o alcaçuz, a giesta de Espanha, os eloendros da Itália e os jasmins dos Açores”. Revirava os olhos, degustando frutas que nunca tivera o prazer de saborear, acostumado apenas aos cajus, mangas e bananas. E nos obrigava a descobrir no dicionário o que era alcaçuz, giesta e eloendro.

Um colega me doutrinava afirmando que todo o poder balzaquiano era consequência da economia e cultura dominantes. Se nós fôssemos poderosos e exportássemos literatura ao invés de açúcar e café, os gringos estudariam em suas escolas o que era um mandacaru. E que minhas preocupações caducavam de velhas, o escritor José de Alencar já se ocupara em defender pontos de vista semelhantes, os modernistas de São Paulo e os regionalistas do Recife levantaram as mesmas questões, apenas na nossa cidade continuávamos ignorando o que se escrevia no Brasil e lendo autores europeus clássicos.

Advertiu que eu não alcançaria mudanças pensando e escrevendo, só através da revolução proletária o mandacaru ganharia status de carvalho, virando um símbolo da resistência nordestina. As ideias me pareceram malucas, continuei dando cabeçadas para todos os lados, subi o rio Granjeiro até chegar à Floresta do Araripe, onde tive a revelação da natureza e do sagrado.

(trecho editado do romance Dora sem véu)

No Comments

Post A Comment