Estive no Maranhão | Ronaldo Correia de Brito | site oficial
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Estive no Maranhão

Faz tempo. Cheguei quando o ciclo de festas juninas – as apresentações de bois e tambores – já devia ter acabado. Naquele ano, seguindo uma orientação da governadora, os bumbas continuavam pelo mês de julho, quebrando o costume de louvar São João apenas em junho. Não é mais a Igreja Católica quem determina o calendário religioso, são os turistas que afluem de vários recantos do Brasil e de fora dele.

A cidade de São Luis e o todo o Maranhão vivem em torno do bumba-meu-boi. Existe uma nomenclatura de sotaques, ritmos e formas de apresentação: matraca, zabumba, orquestra, baixada e costa de mão. Criaram o bumba alternativo, odiado pelos folcloristas conservadores, um boi formado por brincantes sem tradição, que se apresentam para ganhar dinheiro. Poucos escapam da febre pelo turismo.

Tive a sorte de ver um grupo brincando numa cidadezinha de interior. Era um boi de matraca, com a percussão feita por pandeiros enormes, tambores e hastes de madeira. Dançavam em frente à igreja, embriagados como nos cortejos dionisíacos. São João é identificado com Dioniso e Xangô. A igreja abriu as portas e os bêbados dormiam nos bancos e debaixo dos altares. Disseram-me que o festim sexual acontecia numa mata próxima, sob o sol quente. Reconheci no culto orgiástico o mais elevado sentido de arte e celebração religiosa.

No Maranhão, também reencontrei a cordialidade brasileira, que ainda se vê nos interiores do país. As pessoas nos cumprimentam, oferecem o que estão comendo, olham francamente nos olhos e estendem a mão.

Nas margens do rio Preguiça, na cidade de Barreirinhas, porta de entrada para os Lençóis Maranhenses, estive num lugar chamado Vassouras. Não era mais do que uma palhoça grande, uma antiga espera de caça, lembrando um baito indígena. As famílias ficavam seis meses ali, caçando e pescando, depois voltavam para suas casas na cidade.

Hoje, elas cozinham para os turistas, vendem artesanato de buriti e acompanham passeios pelas dunas e lagoas. Já não existem marrecos, veados, antas nem jacarés. É mais fácil caçar o dinheiro dos visitantes. Gostei do lugar, da amplidão da paisagem, da conversa dos homens. Perguntaram se eu não queria ficar por ali. Trouxesse uma rede e armasse. De noite era muito bonito, a lua acesa. Devia ter ficado.

Em Barreirinhas, as ruas não são asfaltadas, por causa do calor. Muitas casas viraram pousadas e há um fluxo enervante de Toyota, viajando para os Lençóis, e lanchas navegando pelo rio. Tudo se transformou nos últimos três anos, depois que construíram a rodovia que vem de São Luis. Não para de chegar gente, apressada em ver as dunas e as lagoas, subir e descer o rio. Tudo compulsivo, como se fosse uma obrigação.

Os idiomas se desencontram, mas os gostos se igualam na roupa de banho, no protetor solar e nas latas de cerveja. Cumprem a primeira estação da via sacra turística e partem apressados para outras devoções, o Delta do Parnaíba, Sete Cidades, Ubajara, Canoa Quebrada, Jericoacoara, bebendo cerveja e tirando retratos. Parecem exaustos pelas caminhadas no sol quente e na areia em que afundam até o joelho. Mas precisam continuar.

O povo da cidadezinha fica. Nunca mais será o mesmo. Sentirá necessidade de possuir uma máquina fotográfica igual à do alemão, ou um relógio com barômetro. Desfazem-se os vínculos ancestrais com a terra, com o rio, com o mar. Pescadores abandonam o ofício que aprenderam com os pais e os avós, preferindo transportar turistas, rio acima, rio abaixo. Agricultores largam seus plantios de subsistência para venderem pequenos artesanatos sem utilidade.

Um rapaz veio do interior onde que mora, sete horas a pé, para fazer uma tatuagem. Um guia de embarcação mostra os dólares que ganhou de uma gringa, por ter dormido com ela. Os mais jovens falam com o sotaque das novelas cariocas, esquecidos que o Maranhão é famoso pela pronúncia bonita do nosso português brasileiro. Começam a circular drogas e surgem os primeiros casos de violência. Brevemente, as casas não ficarão mais de portas abertas e o riso cordial terá intenção e preço.

Sempre questionei os ganhos com o turismo. O impacto social e cultural sofrido pelas nossas comunidades é irreparável. Muitas vivem afastadas do mundo, ainda praticam o escambo, e da noite para o dia são invadidas por levas de estrangeiros que usufruem o que elas têm de melhor, deixando em troca algum dinheiro e a ilusão do progresso.

Países como França, Espanha e Holanda chegaram a um estágio de desenvolvimento em que a indústria do turismo longe de ser danosa é lucrativa. Nós ainda somos frágeis, lutamos por uma identidade e pela sobrevivência.

Muitos que desembarcam no Maranhão, chegam à procura de sexo fácil. Na Europa também existe prostituição, mas tanto lá como na Austrália é uma profissão reconhecida e os bordéis até possuem ações na bolsa de valores. Será que o dano moral de uma prostituta holandesa se compara ao sofrimento de uma menor que se vende nas praias do Nordeste, para ter o que comer?

A cordialidade ou não sei que outro instinto motivava nossas índias a se entregarem aos navegadores. Mas é a miséria, o desejo de consumo e a ruptura com a origem e o passado cultural que empurram nossos rapazes e moças para os abraços sufocantes de gringos e gringas.

Depois de quinhentos anos, persistem as mesmas relações de exploradores e explorados. Mudaram as bugigangas do assédio, os espelhos, os colares, as continhas de vidro. Os novos fetiches são as notas de dólares e a promessa de trabalho ou casamento do outro lado do oceano.

   

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