Onde vou me esconder? | Ronaldo Correia de Brito | site oficial
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Onde vou me esconder?

Pedro Rulfo não era o seu nome. Por segurança, fica sendo a partir de agora. Os tempos sombrios de quando a história aconteceu ameaçam voltar. Ninguém sabe o que nos aguarda, cinco passos à frente. Despojado do seu nome próprio, o jovem estudante de sociologia ganha em mistério.

Quando Pedro Rulfo me procurou, gestava um plano que só mais tarde revelaria. Seu pai, embaixador no Brasil, se mudou para a Argentina, em seguida foi ao Chile e, por último, se recolheu ao México, país de origem, onde acreditava estar seguro de perseguições. Ativista, nunca se limitou ao exercício da diplomacia. Ajudava perseguidos políticos a se exilarem dos países onde eram procurados, denunciava os excessos de poder.

Eram os idos de 60 e 70, o plano norte americano de desestabilizar a América Latina e os movimentos sociais de esquerda encontrava respaldo nas forças armadas, na imprensa conservadora, no empresariado e na classe média avessa a mudanças do modelo colonialista e escravocrata. A casa grande e a senzala nunca tinham deixado de existir, se reproduziam de maneiras diferentes em todo Brasil.

Não soube como Paula Silva – outro nome de ficção – e Pedro Rulfo se conheceram. Ele mudara de cursos e endereços algumas vezes e, por último, estudava sociologia. Contrastando com o homem alto, magro, branco e de olhos claros, Paula era uma índia Cariri: baixinha, morena, gorda e de quadris largos. Adorava comer e tornara-se famosa pelas conquistas. Embora fôssemos amigos inseparáveis na universidade, perdemos o contato logo depois da formatura. As derradeiras notícias me falavam de uma mulher grisalha, morando na Alemanha com outro homem.

Numa noite em que estudávamos terapêutica, no apartamento onde eu residia, Paula me revelou sua inquietação com o futuro de Pedro. Garantiu-me que o próximo a desparecer seria ele. De madrugada, enquanto fumávamos, voltou ao assunto. Dormíamos juntos numa cama de solteiro, pés contra cabeça. Sentíamos orgulho da revolução sexual, de não haver risco nem pudor em uma mulher deitar na cama com seu melhor amigo para algumas horas de sono. E apenas dormir.

Respondi.

Desde criança fantasio que existe um lugar afastado do mundo, onde nada chegou nem vai chegar, nem mesmo as radiações de uma bomba atômica. Vive isolado há mais de três séculos.

E esse lugar é invenção tua?

Foi lá onde eu nasci, uma fazenda antiga no sertão dos Inhamuns, no Ceará.

Pedro Rulfo viajou para a fazenda Lajedos. De Recife até o Iguatu, dessa cidade à Cruzeta, onde os caminhos se encontram, os transportes param e tomam outras direções, abarrotados de gente. Num dos carros, Pedro seguiu ao Saboeiro. De lá, na carroceria de uma caminhoneta, chegou a Lajedos com a carta que eu escrevera de punho. Pedia que o acolhessem por um tempo, que não atinava quanto tempo seria, que arranjassem alguma ocupação para o rapaz não sentir-se inútil. Da ociosidade nasce o vício, do vício a ruína, excedi-me numa sentença.

Talvez pelo meu prestígio com a família, a quem eu endereçava o pedido de guarida, ou pelas qualidades de Pedro, que provocariam uma revolução de costumes na comunidade de fazendeiros, deixaram que ficasse, sem jamais perguntar quando iria embora. No começo, estranharam quando pediu um bisaco e foi com os trabalhadores aos algodoais, colher capuchos. As mãos sangraram até se calejarem. O patriarca da família pesava numa balança o seu apanhado de todos os dias e anotava num caderno. Pedro desconhecia o significado das anotações. Nesse tempo, os grandes plantios diminuíam pela ação nefasta do bicudo do algodoeiro. Homens e mulheres simples acreditavam que os americanos tinham disseminado a praga. Desse modo, punham fim à riqueza do ouro branco no Nordeste, impediam que nosso algodão competisse com o deles.

A cada novo dia de trabalho o bisaco do apanhador crescia em volume, obrigando-o a ir várias vezes na pesagem. Os números do caderno de notas também cresciam. Ao final da tarde, quando os apanhadores tiravam o pelo do algodão em banhos de açude, Pedro sentia-se enlevado com a nudez coletiva. À noite, depois da janta, os homens sentavam no alpendre para conversas. Sob protestos, Pedro ajudava as mulheres na cozinha. Só buscava as companhias masculinas depois que as mulheres haviam deitado a última criança. Aprendeu a manejar os teares de redes, um ofício feminino, e tornou-se exímio artesão de varandas. Todos o amavam em silêncio. Nos sambas de latada, nunca conseguia sentar, sempre havia alguma pretendente, esperando sua vez numa dança.

Um dia, chegou ao Recife a carta do pai e de lá foi enviada ao sertão. Vinha endereçada do México. Assegurava que Pedro podia regressar à casa sem susto. Todos na fazenda Lajedos tinham se afeiçoado ao estrangeiro e ele já não sabia se desejava retornar ao mundo de onde viera. Mesmo assim foi. A lembrança do corpo de Paula perturbava seu sono.

Na despedida, entre sisudos apertos de mãos, o fazendeiro que o acolhera estendeu um maço de cédulas. Pedro assustou-se.

– O que é isso?

– O pagamento dos seus dias de trabalho.

– E as despesas que eu dei?

– Você era nosso hóspede.

– Não compreendo a lógica.

– São os códigos sertanejos.

Comovidas e silenciosas, as mulheres da casa assistiam a cena.

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