Cabeça para baixo, pernas para cima | Ronaldo Correia de Brito | site oficial
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Cabeça para baixo, pernas para cima

O carnaval não mudou, desde os primórdios, nos temas reais e simbólicos que o definem: carne e bebida, sexo e violência. Para os italianos, é da palavra carne que deriva o nome carnevale – vale comer carne. Precedendo os magros dias da quaresma, cujos símbolos eram um homem esquelético e um peixe magro pendurado na ponta de uma vara, o carnaval era a festa do excesso, da opulência, da fartura.

No Brasil, o vale comer carne se refere a carnes cuja degustação não implica em canibalismo, apesar do nosso passado antropofágico. Dizem que os índios comiam os semelhantes para incorporar suas virtudes. Conversa de antropólogo. Os tapuias não estavam nem aí para as virtudes católicas. Já imaginaram os caetés degustando o bispo D. Pero Fernandes Sardinha e falando: que maravilha essa castidade; engoli a memória de um salmo; depois de comer essa panturrilha, me tornarei um retórico. Não concebo o canibalismo ritual, apesar da moda estar voltando na Alemanha.

No carnaval brasileiro, as funções do verbo comer não passam pelos maxilares. Ninguém desfila com estandartes de suculentos pernis de porco, como na Europa Medieval. Com o fracasso do “Fome Zero”, seria um risco exibir carnes tão provocantes. Os famintos acabariam a festa. Ainda bem que mudamos significados e valores, exageramos noutros apetites. Expomos no asfalto o corpo rebolante, gordo ou magro, a pé ou trepado em carros alegóricos. Não importa, interessa ser visto a qualquer preço. Ocultar-se como antigamente? Brincar anônimo como faziam os príncipes italianos?  Está louco? Em nosso carnaval as máscaras perderam a função.

Mundo de cabeça para baixo. No carnaval, o rei saía disfarçado em  meio ao povo e um camponês ostentava uma coroa. Hoje, os políticos fazem questão de mostrar-se em palanques oficiais ou camarotes de luxo. Nas gravuras antigas, os homens aparecem vestindo roupas femininas e as mulheres de calças, botas, chicote na mão, fumando charuto e dando ordens. Os velhos símbolos da inversão do mundo foram para os baús e o que era exclusividade do carnaval virou calendário.

Para que servem os três dias de Momo, que em Recife e Olinda podem ser trinta ou sessenta? Controle social? Fuga de um cotidiano miserável? Reunião de classes e culturas, celebrando a alegria e o prazer? A democracia cantada em marchas e sambas existe mesmo? Desfeita a maya é possível o reencontro dos homens e mulheres que se abraçavam como foliões?

Um cordão de isolamento, real ou simbólico, divide as gentes pernambucanas na festa, como o rio Capibaribe separa o Bairro de Santo Antonio do Recife Antigo. Alguma coisa mudou, é bem verdade. Antigamente, um cavalo marinho pedia licença ao senhor de engenho para se apresentar no terreiro da casa grande e os donos da casa assistiam ao brinquedo lá de cima do terraço. Hoje, na rua do Bom Jesus, um mestre rabequeiro toca ciranda num palanque, para deleite dos antigos senhores, que dançam em baixo, no meio da rua.

Valorizou-se a arte popular com o olho no turismo e no mercado do exótico, mas ainda não mudou a realidade social dos artistas. Os brincantes dos maracatus rurais são transportados da zona da Mata Norte para os desfiles no Recife, em carrocerias de caminhões, da mesma maneira que se transporta o gado e a cana. Enquanto se apresentam nas passarelas, nenhum brilho ofusca o de suas golas bordadas com vidrilhos e lantejoulas. Tontos de cachaça, os caboclos carregam o surrão de chocalhos como se fosse uma cruz leve, bem mais maneira que o facão de cortar cana. Cumprem o cortejo e refazem o caminho de volta às casas de taipa onde vivem.

O carnaval só é possível com a embriaguez. Sem o álcool a dura realidade não se transforma em sonho de três dias. Os olhos enxergam o mundo em preto e branco, com as lentes de sempre. Percebem o quanto é diferente o povo que brinca na Avenida Guararapes do povo que brinca no Bairro do Recife. Que há camarotes no Galo da Madrugada, inacessíveis ao salário mínimo. Que nas ruas estabeleceram espaços, definiram fronteiras.

Os cortejos reproduzem a falsa democracia social, a perigosa convivência entre ricos e pobres. As flechas dos caboclinhos, as lanças dos lanceiros e as espadas da corte romana do maracatu são todas alegóricas. Nenhuma delas fere ou transforma a realidade que jugula os brincantes. Mesmo que vivamos em clima de guerra civil, separados em campos de batalha, em morros e condomínios fechados, favelas e prédios de luxo, palafitas e Lago Sul, no carnaval as investidas são todas pacíficas, os ataques ao passo de dança, as embaixadas poéticas.

Numa representação do Auto de Caboclinhos, o tuxaua conclama os seus guerreiros:

– Tupiriçá!

– Taquá!

– Que caboclos são vocês?

– Caetés!

– Caetés pedem paz ou guerra?

– Guerra!

A crônica policial da quarta-feira de cinzas atribui a acidentes ou motivos passionais o saldo de mortos da guerra de Momo.

Será que o Brasil real virou um mundo de cabeça para baixo?

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