Tarcísio Pereira imortal, imortal | Ronaldo Correia de Brito | site oficial
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Tarcísio Pereira imortal, imortal

O livreiro Tarcísio Pereira, usando a tradicional camisa de brim azul, calça jeans e boina, se aproxima e põe em minhas mãos, com a delicadeza que também era sua marca, um volume de A arqueologia do saber, de Michel Foucault.

– O livro que você queria acabou de chegar. É esse mesmo?

Olho Tarcísio, correspondo ao sorriso e digo que na verdade eu havia procurado romances de Faulkner. Ele sofrera um deslizamento, coisa típica da psicanálise: deslizara de Faulkner para Foucault.

Ou seria artimanha de livreiro, que nos induz a gostar de livros que nem cogitávamos ler? Já que fui coaptado, aproveito para iniciar-me no filósofo e pensador em moda naquela época. Compro Foucault e o leio aos solavancos, da maneira que lia Lacan em minha formação psicanalítica.

– Já conhece Antonin Artaud?

– Li O teatro e seu duplo, mas basta por hoje. Não sou compulsivo nas compras como Abel Menezes e Jomard Muniz de Britto.

– Não fale mal dos seus amigos.

Rimos.

– Basta mencionar o Cão e ele aparece, grito em forma de saudação.

E aponto as duas figuras emblemáticas entrando na livraria, alvoroçados, falando alto e ao mesmo tempo. Vou ao encontro deles.

– Seu Reinaldo! Me cumprimenta Abel Menezes.

– Como vai o meu primo rico? Ironiza Jomard, porque tenho o sobrenome Brito com um único “t”.

O Recife intelectual, leitor, filósofo, historiador, artístico, estudantil, festivo ou sisudo, de esquerda mas não apenas de esquerda, a cidade inquieta e conservadora gravitava em torno da Livro-7. A livraria de Tarcísio Pereira foi um fenômeno dos anos 70, 80 e até 90, incompreensível nos dias de hoje pelo significado e representação que alcançou. Tudo o que se realizava em teatro, dança, música, cinema, jornalismo, artes visuais e literatura convergia para a Livro-7 e dela para outros recantos, cumprindo o jargão Pernambuco falando para o mundo.

Surgiram outras livrarias, mas todas com o formato de supermercados. Mesmo que promovessem lançamentos, conferências e shows, nunca se tornaram o ponto obrigatório de encontros para conversas, panfletagens e discussões ideológicas. A impressão era a de que os rumos da cidade eram traçados na Livro-7.

O Recife mudou, o centro entrou em decadência, os consumidores deixaram de frequentá-lo, a venda de livros caiu. Recife tomou feição de Síria e Iraque bombardeados. Cresceu o barulho, o trânsito, as dificuldades de deslocamento, o medo. Os mercados livrarias, sem livreiros, mudaram-se para os shoppings ou para as plataformas de internet, tornando impessoais a relação com os leitores. Findou uma era, outra delineia-se com youtubers, blogs, sites e oficinas especializados em aconselhar leituras, etc., etc….

Mas falta alguém de boina e camisa azul, que deixe em nossas mãos um livro que não pensávamos ler, transformando o acaso em necessidade.

Espero que existam livrarias no céu, onde Tarcísio continue a missão a que dedicou a vida: promover a leitura.

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