Baccaro entre goles de café | Ronaldo Correia de Brito | site oficial
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Baccaro entre goles de café

A recordação surgiu em São Paulo, no almoço em casa de uma amiga, talvez provocada pelos quadros de Zé Claudio, João Câmara e de outros artistas pernambucanos.

– E Baccaro?

– Morreu há pouco tempo e parece esquecido. Já vivia morto pela doença que o deixou fora do mundo.

– Uma pena. Admirava o projeto social Casa da Criança, em Olinda.

– Aquilo acabou-se. As pessoas invadiram o sítio e as casas onde o projeto funcionava. Nada restou das oficinas. Tudo construído com o dinheiro ganho na venda de mais de cem quadros de Ismael Nery.

Silêncio e goles de café. As palavras desaparecem entre as pinturas nas paredes.

– Mais café?

– Sem açúcar.

O fracasso de Baccaro fala à nossa amargura.

Fracasso?

Lembro o italiano impulsivo que deixou Roccamandolfi e Nápoles e veio para o Rio, onde perdeu todo o dinheiro em corridas de cavalo, no Hipódromo da Gávea. Carcamano bonito, culto, sedutor, depressa conseguiu ocupação numa gráfica editora. Num piscar de olhos morava em São Paulo, transformado em marchand, galerista, colecionador, pintor e desenhista. Procurou os artistas Flávio de Carvalho, Tarsila do Amaral e Anita Malfatti, que viviam esquecidos em suas casas. Adquiriu lotes da produção de Ismael Nery e obras de Cícero Dias, Marcelo Grassmann, Maciej Babinski, Goeldi, Lívio Abramo, Tarsila, Di Cavalcanti e de outros consagrados no cenário modernista brasileiro.

– Nosso mercado de artes plásticas ainda era bem amador.

– Em São Paulo, havia os leilões beneficentes do Hospital Albert Einstein. Baccaro criou sua casa de leilões comerciais.

– Nunca compreendi porque no auge do sucesso ele larga tudo e se muda para Olinda.

– Baccaro cansou de ser marchand e galerista, de encher as casas dos milionários com obras de arte, enquanto nossos museus não tinham acervo expressivo. Pietro Maria Bardi, seu sócio por um tempo, redimiu-se com o Museu de Arte de São Paulo. Baccaro, que segundo Ralph Camargo inventou o mercado de arte no Brasil, bandeou-se para as causas sociais.

– A Fundação Casa da Criança de Olinda.

– E os festivais de violeiros repentistas, a Caravana Nacional pelas Diretas Já, a Caravana da Saúde, tudo financiado por ele. Vendia seu patrimônio para investir em projetos sociais, de maneira desordenada, sem controle. Sofria de insônia, não sei que angústia o devorava.

O café esfria na xícara, a conversa sucumbe à tristeza, parece condenada ao mesmo exílio das dezenas de quadros pendurados nas paredes, mortos porque não há quem os olhe e recrie. Peças decorativas, que alimentam a vaidade e o poder de quem adquire. A usura do dono prevalece sobre a vida do criador.

Arrasadora metáfora. É necessário vender. Os que possuem dinheiro compram, enclausuram em apartamentos e casas o que parecia vivo, criado para muitos verem. Nas altas paredes sem iluminação adequada, lembram defuntos amortalhados, assombrações.

– Baccaro rebelou-se contra a perversão que ajudou a criar e alimentou com seu espírito aventureiro e comerciante. Dizem que empurrou no mercado obras e artistas ruins. É possível. O bom e o ruim se confundem. Vaiaram Stravinsky e a Sagração da Primavera, acharam a música abominável na estreia em Paris. Demoraram a alcançar a revolução que representava. Preferiram classificá-la como sem valor. Depois tornou-se ousada, um marco. Quem sabia que Ismael Nery era o que era? Baccaro soube e comprou quase tudo dele. Não aceitava barreiras entre o popular e a criação “erudita”. Nery tinha horror a ser confundido com regionalista. Baccaro pendurava na sua galeria F. da Silva ao lado de Tarsila. Profanação? A quem? A F. da Silva? Largou São Paulo por Olinda, mais parecida com a medieval Roccamandolfi. O que buscava com sua culpa cristã, sensibilidade e misticismo? Nunca soube. A alma de alguns homens é terreno movediço, miragem no deserto.

– Mais café? Água?

– Obrigado. Posso olhar suas coleções?

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