Vai continuar assim | Ronaldo Correia de Brito | site oficial
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Vai continuar assim

Que ano difícil esse de 2020! Vocês concordam comigo? Em fevereiro eu viajava pelo sertão do Ceará, na companhia de Reinaldo Moraes e equipe, filmando um episódio da série “Viagem de bolso”, sobre o meu romance Galileia. No mesmo mês eu brincava o Carnaval do Recife, a meio corpo, uma perna na rua e outra dentro de casa. Cismava com a multidão e os estrangeiros. Sentia na alma os ventos da peste, a suspeita de que os próximos a adoecer e morrer seríamos nós. Um Carnaval febril, agonizante, ao som do frevo Último dia, de Levino Ferreira. O bloco que passou ao meu lado cantava a marcha de Getúlio Cavalcanti: “falam tanto que meu bloco está / dando adeus pra nunca mais sair / e depois que ele desfilar / do seu povo vai se despedir…”

Em 16 de março, as primeiras ordens para que se fechassem as portas. Os que podiam, se recolheram. Os pobres, miseráveis e moradores de rua continuaram perambulando em busca da sobrevivência. A peste, o Estado de sítio. Inquietos, leitores antigos sopraram a poeira dos livros de Albert Camus. Busquei atmosfera mais soturna e achei-a no romance Sangue na neve, de Georges Simenon: “o jovem Frank não compreende a vida e entrega-se à mais completa solidão, num ambiente propício ao mal. O mundo indefinido em que vive, escapa aos limites do tempo e do espaço.”

Na política nacional, ficamos entregues ao obscurantismo, ao negacionismo, num navio à deriva, com um capitão insano no comando. Pelas lentes opacificadas da luneta, o criminoso nada via de real, apenas delirava com os filhos e a tripulação de seus comandados. Sob ameaça de naufrágio, transcorrem dois anos. Desses, dez meses numa pandemia.

Nascemos e vivemos por um fio, tênue como se fosse tecido por aranha. O medo de contágio pelo Covid-19 estica o fio, aumenta o perigo de que ele se rompa. O segundo perigo de contágio pode ser a perda de fé na Ciência, como no romance de Camus, para quem o triunfo sobre a doença não o ilude: “Sabia o que esta multidão eufórica ignorava, que o bacilo da peste não morre nem desaparece nunca, que pode ficar adormecido durante décadas nos móveis ou entre a roupa, que…”

O Comandante cospe para todos os lados, metralha, debocha do conhecimento acumulado em séculos, tripudia, confunde, manipula. Farsa, crime? No livro das Mil e uma noites, ramo egípcio, os homens são classificados em quatro. O que entende e sabe que entende: é o sábio, e deveis segui-lo. O que entende e não sabe que entende: é o esquecido, e deveis lembrá-lo. O que não entende e sabe que não entende: é alguém à procura de orientação, e deveis orientá-lo. O que não entende e não sabe que não entende: é o ignorante, e deveis tomar cuidado com ele.  Fiquem de olho no Senhor Presidente e em seu séquito de mequetrefes!

Não tivemos comemoração de Páscoa, os chocolates amoleceram nas prateleiras dos supermercados. As pessoas que fazem os espetáculos da Paixão em Pernambuco, guardaram os figurinos em sacos de celofane com naftalina. Cristo morreu sem ressuscitar. Os bolsos vazios de técnicos e artistas sacolejaram sem tinido de moedas, nem as da traição. Abandonados ao Deus dará os lavradores da arte subiram ao Gólgota.

Não tivemos São João. O Nordeste do Brasil sem João? Será possível? “Quem vem de lá, quem vem do mar, rugindo feito dragão, será São João?” De nada valeram os rugidos do santo, não houve festa. Foi proibido o Natal e o Ano Novo. Está proibido o Carnaval no país tropical. O calendário se repete vazio, esvaziado. Não teremos Páscoa. Artistas das Paixões de Pernambuco novamente não sacrificarão o Cristo e ele novamente não ressuscitará para ganho de todos.

Vai continuar assim. É necessário reinventar-se, se adaptar ao novo. A pandemia veio para transformar o que era em não será mais. Aceite o tempo hermético. Tente encontrar saídas e garantir-se vivo.

E feliz 2021! Sem festa de réveillon.

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