O café esfriou na xícara | Ronaldo Correia de Brito | site oficial
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O café esfriou na xícara

Quase ninguém no Crato, uma cidade do sul do Ceará onde nasceu o Padre Cícero, lembra quem foi Izabel Virgínia. O nome dessa senhora e os acontecimentos que faziam do Crato a cidade mais importante depois da capital Fortaleza, dormem sob camadas de esquecimento, como os peixes fósseis sob camadas de calcário, prova de que a cidade foi um oceano no período cretáceo. A memória já não possui tanto prestígio como na antiguidade e é preferível armazená-la nos computadores.

Izabel Virgínia, uma mulher negra gorda, que parecia estacionada nos sessenta anos, era dona de um café frequentado por políticos e intelectuais da cidade. É claro que o estabelecimento cratense nem se comparava ao Cafe Savoy de Praga, onde Franz Kafka costumava passar os finais de tarde. Nenhum dos nossos intelectuais se destacou no cenário mundial e os políticos não ficaram conhecidos além das fronteiras do Cariri. Mas Izabel Virgínia, para glória dos homens, fazia um doce de leite divino e uma pamonha cozida em folha de bananeira que era um supremo invento da culinária.

O café ficava numa das ruas principais da cidade, próxima ao cinema Moderno e Cassino, numa casa que servia de morada e ponto comercial, com duas águas, um pé direito acima dos oito metros, no estilo porta e janela com sacadas, piso de tijolos e um corredor comprido que atravessava da sala de visitas até a cozinha. As mesas toscas, com bancos ou cadeiras de assento de couro de boi, nada tinham de confortáveis. Tudo modesto e sem brilho, despojado como a sábia cozinheira, que na maioria das vezes não cobrava dos seus fregueses importantes.

Quem vinha pela calçada ouvia as discussões dos coronéis e políticos, homens de roupa de linho e chapéu, fumando cigarro ou charuto. Não lembro uma única mulher sentada em volta daquelas mesas, onde se decidia o destino local. Bares e cafés, no nordeste do Brasil, ainda não eram locais recomendáveis às mulheres de respeito. Izabel Virgínia, uma negra que certamente guardava memória de avôs escravos, sentia prazer em servir à clientela ilustre que sempre deixava a conta na pendura. Talvez por isso ela fosse pobre e endividada, com fama de caloteira por não pagar o açúcar, o milho verde e o leite comprados para os doces e pamonhas, engordando os ricos mal pagadores.

Quando Izabel Virgínia morreu, uma sobrinha assumiu o negócio, mas parou de servir café aos fregueses, que certamente também morreram. Pouco tempo depois ela também desapareceu da cena culinária. A região ganhou universidades, fecharam-se os cinemas e pontos de encontro de intelectuais. O lugar ostenta o epíteto de Cidade da Cultura, embora seja quase impossível definir a cultura a que se referem.

A cultura agrária entrou em decadência, apagaram-se as fornalhas de algumas centenas de engenhos de rapadura. A cultura arquitetônica, com casarios revestidos de azulejos portugueses e ruas calçadas de paralelepípedos e pedras lavradas, deu lugar às fachadas cerâmicas e metálicas, de gosto suspeito, com enormes letreiros e placas, numa poluição visual escandalosa. As ruas asfaltadas e invadidas por carros e motos, tornaram-se barulhentas e feias, como em quase todas as cidades dos interiores pobres do Brasil.

A cultura musical é a das bandas de forró brega, um massacre aos ouvidos sensíveis. E a culinária das doceiras e quituteiras como Izabel Virgínia, envergonhada dos sabores locais, imita o que de pior se produz nas McDonald’s do mundo afora. Embora ainda sobrevivam timidamente os filhoses, charutinhos, mungunzá salgado e alguns tipos de doces.

Quando Gilberto Freyre retornou ao Brasil, depois de temporada numa Universidade Americana, deu de cara com o manifesto modernista e atacou-o por sentir que nele faltava respeito à tradição. Acusado de conservador, Gilberto cobrava atenção para a cultura que nos forma e que de tão desenraizada e amorfa nos fragiliza e empobrece. Do Manifesto Regionalista para cá, as coisas pioraram. Não foi apenas o café e o doce de leite de Izabel Virgínia que deixou de existir. Foi também nosso gosto de ser brasileiros.

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