O autor | Ronaldo Correia de Brito | site oficial
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Ronaldo Correia de Brito é escritor e médico, nasceu em Saboeiro, Ceará, em 2 de julho de 1951. Radicado em Recife, formou-se em Medicina pela Universidade Federal de Pernambuco, 1975, com formação Psicanalítica pelo Centro de Estudos Freudianos. Foi escritor residente da Universidade de Berkley (Califórnia), participou de diversos eventos internacionais, como a Feira do Livro de Bogotá e o Festival Internacional de Literatura de Buenos Aires e do Salon du Livre de Paris. Recebeu homenagens por sua obra, como a da VIII Bienal Internacional do Livro de Pernambuco.

Sua carreira artística envolve as mais diferentes linguagens, como literatura, teatro e música. São de sua autoria O baile do menino deus (teatro), Lua Cambará (disco), Faca (livro de contos), Galiléia (romance ganhador do Prêmio São Paulo de Literatura) e o mais recente Estive lá fora (romance). Em 2013 será um dos autores brasileiros convidados a participar da Feira do Livro de Frankfurt e da Jornada Literária de Pequim.

Biografia

No princípio era o sertão

Ronaldo Correia de Brito nasceu na fazenda Lajedo, município de Saboeiro – Ceará, sertão dos Inhamuns, em 1 de outubro de 1950. Era nove horas de uma manhã de domingo, seu pai João Leandro saiu ao terreiro e deu um tiro de espingarda para cima, anunciando as alvíssaras. Quando a família levou a criança para ser batizada, na igrejinha colonial de Saboeiro, o padre redentorista alemão confundiu o nome ‘Ronaldo’ com ‘Runwald’ – de origem druida, usado para designar o feiticeiro que joga as runas – e recusou-se a batizar a criança dizendo tratar-se de um nome pagão. A família, às pressas, escolheu o nome ‘José’, porque o bebê nascera laçado pelo cordão umbilical e chamar-se ‘José’ seria o sortilégio que o livraria de morrer afogado. A confusão não terminou aí. Contrariado com a recusa do padre, o pai decidiu registrá-lo ‘Ronaldo’, esquecendo o ‘José’ do batismo. O tabelião do cartório havia bebido em excesso naquele dia e escreveu no registro a data 2 de julho de 1951, o que só foi descoberto anos depois e nunca corrigido. Com dois nomes e duas datas de nascimento, Ronaldo escolheu chamar-se Ronaldo e teve de assumir, por motivos burocráticos, o 2 de julho de 1951.

Os antepassados sefarditas

Ritinha Brito, a mãe, nascera no Crato, na região do Cariri, cidade cercada pela Chapada do Araripe, com floresta atlântica e centenas de nascentes d’água, o oposto do árido sertão dos Inhamuns, cortado pelo rio Jaguaribe, um rio seco que enche apenas durante a estação das chuvas. A família do pai e da mãe viera de Pernambuco, no final do século XVII, parte dela ficou em Saboeiro, alguns fundaram a cidade de Várzea Alegre e outros seguiram para o Crato. Muitos tinham ascendência de cristãos novos, judeus sefarditas batizados de pé para escapar à Inquisição, em Portugal.  O ofício de professora levou Ritinha Brito ao Rosário, onde conheceu o aluno João Leandro, filho dos donos da propriedade. Os dois se apaixonaram, se casaram, e receberam a fazenda Lajedo para morar e administrar.

Entre os poucos pertences da jovem esposa, o mais valioso era um caixote com gramáticas, livros de aritmética, modestas antologias e uma seleta de textos bíblicos do antigo e novo testamento, muito popular nas casas cearenses: A História Sagrada. Os livros de matemática e português serviram aos estudos de João Leandro. Em narrativas como a de José do Egito e seus irmãos, Ronaldo aprendeu a ler e a confundir os pastores sertanejos com os hebreus. A Bíblia sempre representou para ele o mais extraordinário livro de contos e iria marcá-lo por toda vida.

Na fazenda Lajedo nasceram cinco irmãos, desses, dois morreram bem cedo. Quando os pais reconheceram que não havia mais futuro no campo, mudaram-se para o Crato.  O ano era 1955, e o menino acabara de completar cinco anos. Na cidade, a segunda maior do Ceará, ele estudou até a terceira série primária no Grupo Escolar Francisco José de Brito e depois se transferiu para o Colégio Diocesano, onde ficou até o segundo ano científico.

A cidade do Crato

No Crato, Ronaldo assiste aos espetáculos populares – reisados, lapinhas, pastoris, bandas cabaçais, dramas de calçada – e frequenta as festas da Igreja, ricas em representações, verdadeiros autos sacramentais. Ele credita às experiências com as brincadeiras de rua e as celebrações religiosas o seu gosto pelo teatro e a sua formação dramatúrgica. O hábito de ouvir histórias da tradição universal, das mitologias locais, e histórias familiares narradas por diferentes pessoas como a avó materna, a mãe, o pai e os tios, contadas por homens e mulheres que ao modo dos “griots” da África Central perambulavam por fazendas e engenhos, entretendo as pessoas com seu repertório de narrativas, marcou profundamente o futuro escritor.

Num universo pobre de livros e leitores as bibliotecas da diocese, de um primo letrado e da Faculdade de Filosofia representaram a chance de ter acesso ao conhecimento escrito. Quando saiu do Crato para morar no Recife, já havia lido quase toda obra de Machado de Assis, José de Alencar e Monteiro Lobato, e clássicos como Homero, Shakespeare, Balzac, Dostoievski, Tolstoi, Ésquilo, Sófocles, Eurípides e as narrativas da Bíblia. E também via o que passava nos cinemas, sem crítica nem critérios, das chanchadas da Atlântida aos clássicos americanos de John Huston e John Ford, e até diretores europeus famosos como Pasolini, Visconti e Godard.

Recife em tempos sombrios

Em 1969, quando chegou ao Recife para o cursinho pré-vestibular de medicina, vivia-se o auge da repressão militar. Nesse ano foi assassinado o Padre Henrique Pereira e baleado o líder estudantil da Faculdade de Engenharia, Cândido Pinto. Em meio ao terror, o Recife mostrava a beleza de sua arquitetura variada, os rios e as pontes, causando forte impressão no jovem estudante. Camus havia comparado a cidade a Florença e o poeta João Cabral a achava parecida com Sevilha. Ronaldo reencontrou um colega do Crato, Francisco Assis de Sousa Lima, com quem já ensaiara um experimento no teatro, e ele se tornaria seu futuro parceiro de pesquisas e criações.

Classificados no vestibular, os dois se matriculam na Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Pernambuco, no ano de 1970. No segundo semestre desse ano vão morar na Casa do Estudante Universitário e dividem quarto com o poeta Ângelo Monteiro, de quem se tornam grandes amigos. Graças a Ângelo, frequentam o Departamento de Extensão Cultural da Universidade (DEC), dirigido por Ariano Suassuna, que acabara de fundar o Movimento Armorial. Pelo DEC circulavam os mais importantes intelectuais pernambucanos: escritores, poetas, artistas plásticos e músicos. Apesar de muito jovem, Ronaldo é aceito nas rodas de conversas e frequenta espetáculos teatrais, concertos e exposições. Alguns anos mais tarde, ele e Assis Lima farão uma duradoura parceria com o músico Antonio Madureira, do Quinteto Armorial, mesmo não sendo filiados a esse movimento. Numa tarde desse mesmo ano de 70, ele lê para Ângelo Monteiro, Assis Lima e uma pequena platéia da Casa, o primeiro esboço do conto Lua Cambará.

Lua Cambará, o princípio

Esse conto tosco seria o ponto de partida para a criação de um roteiro e a realização do primeiro longa-metragem na bitola super-8, rodado e montado nos anos de 1975, 76 e 77, em parceria com Assis Lima e Horácio Carelli Mendes, com música de Antonio Madureira, numa aventura típica da década. Ao estilo do neo-realismo italiano, os atores não eram profissionais. Avelina Brandão, que vive o papel principal na película, era uma jovem médica, namorada de Ronaldo, que fora acompanhar as filmagens e terminou sendo convocada para atuar. A cópia em super-8 foi transcrita para ‘Betacam’ e mostrada na televisão. Graças a isso o professor da USP Davi Arrigucci Jr. viu o filme, escreveu sobre o mesmo, e mais tarde teve um papel significativo ao lançar Ronaldo como escritor.

Lua Cambará ganhou uma versão musical, composta por Antonio Madureira, duas versões para balé e uma nova versão para o cinema, dirigida por Rosemberg Cariry.

Trilogia das Festas Brasileiras

No começo da década de 1980, em conversa com os amigos Assis e Zoca (Antonio Madureira) acharam que as festas de Natal, São João e Carnaval precisavam de dramaturgia e música à altura das celebrações populares nordestinas. Zoca brincava dizendo que os filhos cresceriam vendo apenas as decorações dos shoppings e escutando tocar o Jingle Bells.  Em 1983 eles lançam um disco pelo selo Eldorado – Baile do Menino Deus – e estréiam uma peça com o mesmo nome. Antes de sair a segunda ‘festa’ da trilogia, eles aprontam, em 1985, o disco O Pavão Misterioso e estréiam uma peça de mesmo nome. É a adaptação de um famoso cordel, e teve a parceria de Antonio Carlos Nóbrega. Em 1987, no mesmo esquema de gravação de um disco e estréia de uma peça teatral, sai Bandeira de São João e, em 1989, Arlequim.

Baile do Menino Deus faz grande sucesso no Recife e torna-se conhecido e encenado no restante do Brasil. Uma edição da Objetiva para o Programa Nacional Biblioteca Escolar, ganhou tiragem de quase meio milhão de livrinhos. A Editora Bagaço, do Recife, publica a partir de 1996 as três peças da trilogia, adaptadas para prosa. A versão de O Pavão Misterioso sai pela Cosacnaify, em 2004, ano em que o Baile do Menino Deus, no formato de cantata natalina, estréia na Praça do Marco Zero, no Recife, onde está em cartaz há 10 anos, sempre nos dias 23, 24 e 25 de dezembro, tornando-se uma grande festa natalina da cidade, do estado e do nordeste.

Contos e romances deixam as gavetas

Embora escrevesse contos e se considerasse um contista, Ronaldo publica sua primeira coletânea apenas em 1987: As noites e os dias – Editora Bagaço. Anos depois ele envia um exemplar desse ‘livrinho magro’ ao professor e crítico Davi Arrigucci Jr., que o indica à editora Cosacnaify. Graças a esse empurrão e aos cuidados editoriais de Rodrigo Lacerda e Augusto Massi, sai publicado Faca, em 2003. Em 10 anos, as gavetas se abrem e Ronaldo expõe o que escondia: Pela editora Cosacnaify: O Pavão misterioso, 2004, em parceria com Assis Lima; Livro dos Homens, 2005. Pela Editora Alfaguara: Galileia, 2008, que ganhou o Prêmio São Paulo de Literatura – Melhor livro do Ano; Retratos imorais – contos –, 2010; Arlequim de Carnaval, 2011 e Bandeira de São João, 2012, em parceria com Assis Lima; e o romance Estive lá fora, 2012. Pela Editora Objetiva publica, em 2011, Baile do Menino Deus, também em parceria com Assis Lima, e o livro Crônicas para ler na escola.

A convite do jornalista Mário Hélio, a partir de dezembro de 2000 passa a assinar a coluna Entremez, na revista Continente. Mais tarde, colabora semanalmente com revista Terra Magazine, do Portal Terra, editada por Bob Fernandes e, anos depois, torna-se colunista quinzenal do jornal O Povo, publicado no Ceará. Colabora em diversos jornais e revistas do Brasil com resenhas de livros, ensaios, crônicas e contos.

Enquanto trabalha a prosa, escreve e encena diversos textos teatrais. Os contos são adaptados para o teatro e o cinema. A partir do êxito alcançado pelo romance Galileia, começam as traduções de seus livros, os convites para palestras, entrevistas, viagens ao exterior. Nesse tempo, como o também médico e escritor Tchekhov, busca um equilíbrio entre o exercício da literatura e da medicina.