29 jun São João não viu
Acendi a fogueira pelas achas superiores. Nada de fogo começando por baixo, desfazendo a trama da lenha, que cede e cai, espalhando brasas e fagulhas. Mais de um metro de galhos e troncos de ingazeiras, secos, inflamáveis, queimando por igual, solenemente. As labaredas sobem, dançam para os lados quando o vento sopra. A noite de céu limpo expõe estrelas, nebulosas e prenúncio de lua. Faz frio e silêncio. Nem parece que estou a cinquenta minutos dos shows juninos de Caruaru, Campina Grande e Limoeiro. Um alívio. Sozinho no extenso terreiro, mil metros acima do mar, contemplo a fogueira e penso nos tempos antigos, quando celebravam o solstício do verão e se queimavam bruxas. Por instantes, minha tranquila alegria se contamina com a dor.
Através de quais caminhos chegamos à festa de São João? Pelo cristianismo. A Primeira Igreja se apropriou dos mitos pagãos e os transformou, celebrando neles os seus santos. Contam que Izabel, esposa de Zacarias, mãe do Batista e prima da Virgem, acendeu uma fogueira anunciado que nascera o seu filho João. Teria sido a primeira de todas. Verdade? Uma mentira poética, tão linda que não custa nada acreditar. De verdade, os druidas queimavam grandes coivaras no dia 23 de junho e, nelas, as mulheres bruxas. Um deslizamento, diria Lacan. Voluntário. Dizem também as boas línguas que, na noite do seu dia, São João Menino, ou Shiva, ou Xangô, ou Krishina, não poderia descer à Terra, pois se viesse por cá, tudo arderia em fogo. Ele suplicava à mãe que o acordasse, mas ela, prevenida, sempre o deixava dormir.
Como são bonitas as histórias que encantavam o ciclo junino. Havia encanto até mesmo no pavor dos que não conseguiam ver o rosto refletido numa bacia d’água, à luz da fogueira. Significava que, com certeza, morreriam naquele ano. As moças penduravam uma aliança por um fio do cabelo, punham entre as bordas de um copo e esperavam ouvir o ouro tilintando no cristal do copo. Tantas vezes fosse, seria os anos que faltavam para ela casar. As mais crédulas enfiavam uma faca de aço virgem no tronco da bananeira e, no dia seguinte, tinham esperança de ver gravadas as iniciais do futuro marido.
Pedi aos moradores da minha propriedade, na serra de Taquaritinga do Norte, que me contassem outras histórias como essas. Existiam tantas. Fui tomado por uma dolorosa nostalgia da infância. Mas eles só falavam no escandaloso show de Wesley Safadão, contratado por 575 mil reais na prefeitura de Caruaru, enquanto na cidade de Campina Grande, ali perto, o mesmo show custara 190 mil. O cantor garantiu que doaria o cachê a instituições de caridade. A prefeitura jurou que havia cancelado o empenho e que o valor seria pago pelos patrocinadores. Safadão declarou que é um artista, não tem nada a ver com a falcatrua, que a culpa é das autoridades brasileiras. Será mesmo? Apenas delas? Os cidadãos têm direitos e nenhum dever, como o de não se corromper, não pagar propina nem aceitar negociatas com políticos e empresários corruptos?
Quem vai arder na fogueira druida? É necessário que alguém queime. Mas, nosso São João é apenas festa. O santo nem desce do céu na sua noite e nada vê do que está acontecendo por aqui.
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