A decadência do cristianismo | Ronaldo Correia de Brito | site oficial
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A decadência do cristianismo

Meu avô paterno José Leandro Correia morreu aos 57 anos, convicto de que iria para o céu. Durante parte de sua existência, deu esmolas para os cofres da igreja matriz de São Raimundo Nonato, paróquia de Várzea-Alegre, lugar onde sempre viveu. Em troca, recebia indulgências plenas, espécie de bônus ou previdência privada que a Igreja de Roma vendia, prometendo a salvação da alma.

 

A Igreja Católica manipulou o imaginário da morte, prometendo outra vida no além. Céu, purgatório ou inferno seria nosso paradeiro, dependendo de nossa trajetória terrena. Nascíamos com a mancha do pecado original, praticado pelos avós Adão e Eva e, ao longo da vida, não fazíamos mais do que acumular pecados. A tirania da culpa era exercida com mão de ferro pela Igreja, e o clero intermediava nossas súplicas a Deus, atribuindo-se o direito de nos absolver ou condenar.

A liberdade individual tornou-se um fardo, cabia à Igreja conduzir-nos como rebanho jugulado ao seu poder absoluto. Com o passar do tempo, Roma e subsidiárias deixaram de se ocupar apenas das questões espirituais, cuidando mais em ampliar o poderio econômico pela força e pelo terror. A exemplo do terrorismo moderno, sustentado pela propaganda como no stalinismo e no nazismo, a Igreja Católica mantinha os fiéis submissos e tutelados, temerosos de queimarem no inferno ou nas fogueiras da Inquisição.

Há pouco mais de dois séculos, esse poder entrou em declínio.  Nietzsche proclamou a morte de Deus, Fellini anunciou o fim da mitologia cristã e Dostoievski escreveu a fábula do Grande Inquisidor. Nela, Cristo volta à Terra, ao seio da Igreja que se fundou após sua morte e ressurreição. Volta pregar ao povo, acenando com promessas de liberdade. É reconhecido e preso pela Inquisição.

O Grande Inquisidor visita o prisioneiro numa masmorra de Sevilha, pergunta porque ele voltou, conforme prometera. As suas mensagens já haviam causado suficiente mal. Custara muito à Igreja assumir o destino dos homens, desgovernados e sem rumo com as promessas do Evangelho. Trata-se de uma narrativa inquietante e subversiva. Ao final, o inquisidor condena Cristo a ser queimado em praça pública por crime de heresia. E garante que as mesmas pessoas que antes o adoravam, carregariam achas de lenha para sua fogueira.

Escrita por Dostoievski no final do século XIX, a parábola moderna ilustra como o cristianismo se afastou de Cristo, a ponto de não reconhecê-lo nem aceitá-lo, condenando-o por heresia.

O cristianismo dos primeiros anos, praticado por escravos nas catacumbas de Roma, tornou-se obsoleto. Nascimento e Paixão são símbolos desprovidos de significado, estereótipos do consumo. Cristo, único cristão verdadeiro segundo Nietzsche, foi transformado em bezerro de ouro. Desapareceu a ética cristã, ou judaico-cristã, ou platônico-cristã. Não vislumbramos o que ocupará o seu lugar.

Faz sentido comemorar as festas do calendário cristão? Somos de verdade um país cristão, ou apenas oficialmente? Abominadas pelos comunistas como “ópio do povo” e cada vez mais próximas do modelo capitalista de consumo, as religiões se transformaram. Cuidaram em atualizar sua linguagem, usando a mídia, o marketing, os apelos comerciais, as promessas de ganhos terrenos. Os evangélicos, pentecostais e neopentecostais não vendem indulgências plenas, mas praticam outros tipos de extorsão. As religiões falam menos em Deus e mais no homem.

Natal, Paixão e dias santificados são pretexto para consumo e libações alcoólicas. Nenhuma sociedade alcançou o hedonismo a que nos entregamos agora. A moral se elasteceu, não ligamos para o remorso e a culpa, já não seduzem as promessas do céu, nem aterrorizam as ameaças do inferno. As novas gerações nem sabem do que isso se trata. O cristianismo social, epidérmico e descartável, pouco se ocupa da alma.

Diante de religiões insanas, que geraram o Fundamentalismo Islâmico e o Santo Ofício, questionamos a necessidade de rituais em nossa vida. Podemos viver sem eles? Por mais que os eventos religiosos tenha se diluído em ceias regadas a vinho, castanhas e perus, a permanência do rito nos parece melhor que a sua ausência. Quando surgiram as primeiras comunidades agrárias, as celebrações se incorporaram à rotina de vida do homem, como forma de marcar as estações, a passagem do tempo, o nascimento e a morte. O calendário cristão assimilou tradições arcaicas, de todos os povos do planeta. E o vinho sempre esteve presente nessas celebrações, a ponto de Cristo e Dioniso se confundirem num único mito.

Meu avô nunca deixou de fazer doações para a festa de São Raimundo Nonato. Talvez, estivesse pensando na salvação da alma. Ou apenas contribuindo para que fosse mantida uma ordem do mundo em que ele acreditava.

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