{"id":1716,"date":"2021-07-19T14:26:24","date_gmt":"2021-07-19T17:26:24","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ronaldocorreiadebrito.com.br\/site2\/?p=1716"},"modified":"2021-07-19T14:26:24","modified_gmt":"2021-07-19T17:26:24","slug":"estive-no-maranhao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ronaldocorreiadebrito.com.br\/site2\/2021\/07\/estive-no-maranhao\/","title":{"rendered":"Estive no Maranh\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Faz tempo. Cheguei quando o ciclo de festas juninas \u2013 as apresenta\u00e7\u00f5es de bois e tambores \u2013 j\u00e1 devia ter acabado. Naquele ano, seguindo uma orienta\u00e7\u00e3o da governadora, os bumbas continuavam pelo m\u00eas de julho, quebrando o costume de louvar S\u00e3o Jo\u00e3o apenas em junho. N\u00e3o \u00e9 mais a Igreja Cat\u00f3lica quem determina o calend\u00e1rio religioso, s\u00e3o os turistas que afluem de v\u00e1rios recantos do Brasil e de fora dele. <\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">A cidade de S\u00e3o Luis e o todo o Maranh\u00e3o vivem em torno do bumba-meu-boi. Existe uma nomenclatura de sotaques, ritmos e formas de apresenta\u00e7\u00e3o: matraca, zabumba, orquestra, baixada e costa de m\u00e3o. Criaram o bumba alternativo, odiado pelos folcloristas conservadores, um boi formado por brincantes sem tradi\u00e7\u00e3o, que se apresentam para ganhar dinheiro. Poucos escapam da febre pelo turismo. <\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Tive a sorte de ver um grupo brincando numa cidadezinha de interior. Era um boi de matraca, com a percuss\u00e3o feita por pandeiros enormes, tambores e hastes de madeira. Dan\u00e7avam em frente \u00e0 igreja, embriagados como nos cortejos dionis\u00edacos. S\u00e3o Jo\u00e3o \u00e9 identificado com Dioniso e Xang\u00f4. A igreja abriu as portas e os b\u00eabados dormiam nos bancos e debaixo dos altares. Disseram-me que o festim sexual acontecia numa mata pr\u00f3xima, sob o sol quente. Reconheci no culto orgi\u00e1stico o mais elevado sentido de arte e celebra\u00e7\u00e3o religiosa.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">No Maranh\u00e3o, tamb\u00e9m reencontrei a cordialidade brasileira, que ainda se v\u00ea nos interiores do pa\u00eds. As pessoas nos cumprimentam, oferecem o que est\u00e3o comendo, olham francamente nos olhos e estendem a m\u00e3o. <\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Nas margens do rio Pregui\u00e7a, na cidade de Barreirinhas, porta de entrada para os Len\u00e7\u00f3is Maranhenses, estive num lugar chamado Vassouras. N\u00e3o era mais do que uma palho\u00e7a grande, uma antiga espera de ca\u00e7a, lembrando um baito ind\u00edgena. As fam\u00edlias ficavam seis meses ali, ca\u00e7ando e pescando, depois voltavam para suas casas na cidade. <\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Hoje, elas cozinham para os turistas, vendem artesanato de buriti e acompanham passeios pelas dunas e lagoas. J\u00e1 n\u00e3o existem marrecos, veados, antas nem jacar\u00e9s. \u00c9 mais f\u00e1cil ca\u00e7ar o dinheiro dos visitantes. Gostei do lugar, da amplid\u00e3o da paisagem, da conversa dos homens. Perguntaram se eu n\u00e3o queria ficar por ali. Trouxesse uma rede e armasse. De noite era muito bonito, a lua acesa. Devia ter ficado.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Em Barreirinhas, as ruas n\u00e3o s\u00e3o asfaltadas, por causa do calor. Muitas casas viraram pousadas e h\u00e1 um fluxo enervante de Toyota, viajando para os Len\u00e7\u00f3is, e lanchas navegando pelo rio. Tudo se transformou nos \u00faltimos tr\u00eas anos, depois que constru\u00edram a rodovia que vem de S\u00e3o Luis. N\u00e3o para de chegar gente, apressada em ver as dunas e as lagoas, subir e descer o rio. Tudo compulsivo, como se fosse uma obriga\u00e7\u00e3o. <\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Os idiomas se desencontram, mas os gostos se igualam na roupa de banho, no protetor solar e nas latas de cerveja. Cumprem a primeira esta\u00e7\u00e3o da via sacra tur\u00edstica e partem apressados para outras devo\u00e7\u00f5es, o Delta do Parna\u00edba, Sete Cidades, Ubajara, Canoa Quebrada, Jericoacoara, bebendo cerveja e tirando retratos. Parecem exaustos pelas caminhadas no sol quente e na areia em que afundam at\u00e9 o joelho. Mas precisam continuar.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">O povo da cidadezinha fica. Nunca mais ser\u00e1 o mesmo. Sentir\u00e1 necessidade de possuir uma m\u00e1quina fotogr\u00e1fica igual \u00e0 do alem\u00e3o, ou um rel\u00f3gio com bar\u00f4metro. Desfazem-se os v\u00ednculos ancestrais com a terra, com o rio, com o mar. Pescadores abandonam o of\u00edcio que aprenderam com os pais e os av\u00f3s, preferindo transportar turistas, rio acima, rio abaixo. Agricultores largam seus plantios de subsist\u00eancia para venderem pequenos artesanatos sem utilidade. <\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Um rapaz veio do interior onde que mora, sete horas a p\u00e9, para fazer uma tatuagem. Um guia de embarca\u00e7\u00e3o mostra os d\u00f3lares que ganhou de uma gringa, por ter dormido com ela. Os mais jovens falam com o sotaque das novelas cariocas, esquecidos que o Maranh\u00e3o \u00e9 famoso pela pron\u00fancia bonita do nosso portugu\u00eas brasileiro. Come\u00e7am a circular drogas e surgem os primeiros casos de viol\u00eancia. Brevemente, as casas n\u00e3o ficar\u00e3o mais de portas abertas e o riso cordial ter\u00e1 inten\u00e7\u00e3o e pre\u00e7o.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Sempre questionei os ganhos com o turismo. O impacto social e cultural sofrido pelas nossas comunidades \u00e9 irrepar\u00e1vel. Muitas vivem afastadas do mundo, ainda praticam o escambo, e da noite para o dia s\u00e3o invadidas por levas de estrangeiros que usufruem o que elas t\u00eam de melhor, deixando em troca algum dinheiro e a ilus\u00e3o do progresso. <\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Pa\u00edses como Fran\u00e7a, Espanha e Holanda chegaram a um est\u00e1gio de desenvolvimento em que a ind\u00fastria do turismo longe de ser danosa \u00e9 lucrativa. N\u00f3s ainda somos fr\u00e1geis, lutamos por uma identidade e pela sobreviv\u00eancia.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Muitos que desembarcam no Maranh\u00e3o, chegam \u00e0 procura de sexo f\u00e1cil. Na Europa tamb\u00e9m existe prostitui\u00e7\u00e3o, mas tanto l\u00e1 como na Austr\u00e1lia \u00e9 uma profiss\u00e3o reconhecida e os bord\u00e9is at\u00e9 possuem a\u00e7\u00f5es na bolsa de valores. Ser\u00e1 que o dano moral de uma prostituta holandesa se compara ao sofrimento de uma menor que se vende nas praias do Nordeste, para ter o que comer? <\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">A cordialidade ou n\u00e3o sei que outro instinto motivava nossas \u00edndias a se entregarem aos navegadores. Mas \u00e9 a mis\u00e9ria, o desejo de consumo e a ruptura com a origem e o passado cultural que empurram nossos rapazes e mo\u00e7as para os abra\u00e7os sufocantes de gringos e gringas. <\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Depois de quinhentos anos, persistem as mesmas rela\u00e7\u00f5es de exploradores e explorados. Mudaram as bugigangas do ass\u00e9dio, os<\/span> <span class=\"s1\">espelhos, os colares, as continhas de vidro. Os novos fetiches s\u00e3o as notas de d\u00f3lares e a promessa de trabalho<\/span> <span class=\"s1\">ou casamento do outro lado do oceano. <\/span><\/p>\n<p class=\"p3\"><span class=\"s3\"><span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 \u00a0 <\/span><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Faz tempo. Cheguei quando o ciclo de festas juninas \u2013 as apresenta\u00e7\u00f5es de bois e tambores \u2013 j\u00e1 devia ter acabado. 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