{"id":1551,"date":"2021-01-09T23:48:16","date_gmt":"2021-01-10T02:48:16","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ronaldocorreiadebrito.com.br\/site2\/?p=1551"},"modified":"2021-01-11T14:07:32","modified_gmt":"2021-01-11T17:07:32","slug":"amor-para-alem-da-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ronaldocorreiadebrito.com.br\/site2\/2021\/01\/amor-para-alem-da-vida\/","title":{"rendered":"Amor para al\u00e9m da vida"},"content":{"rendered":"<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Minha av\u00f3 materna narrou a morte de seu marido Pedro Zacarias de Brito 1001 vezes, como se fosse a Sherazade de uma \u00fanica hist\u00f3ria. Considerando os dias e horas de nossa conviv\u00eancia, esse n\u00famero pode ser bem maior. A perda do esposo tornou-se um marco na vida de D\u00e1lia Nunes de Brito. <\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Nos primeiros anos de viuvez ela cobriu-se de negro, um figurino que poderia incluir mantilha sobre a cabe\u00e7a, mangas compridas e meias at\u00e9 os joelhos. Os vestidos chegavam aos tornozelos e seguiam um padr\u00e3o \u00fanico de costura. Apenas no final da vida, que durou quase um s\u00e9culo, ela aceitou amenizar o luto. <\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Tamanha rigidez na express\u00e3o de uma perda faz imaginar uma pessoa amarga, dura e at\u00e9 cruel. O oposto do que sempre foi D\u00e1lia Nunes, a mais alegre, doce e brincalhona das criaturas, uma quase maluca nas suas inven\u00e7\u00f5es e fantasias. <\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Meu av\u00f4 tinha apenas 42 anos quando foi encontrado morto \u00e0s margens do riacho Jardim, afluente do Car\u00e1s, que des\u00e1gua no Salgado, que corre para o Rio Jaguaribe, que desemboca no oceano Atl\u00e2ntico, bem longe, em Aracati. D\u00e1lia contava que o Jardim estava de cheia, a correnteza aumentando, e faltaram apenas dois palmos para o corpo de Pedro ser arrastado pelas \u00e1guas. Nessa parte da hist\u00f3ria ela tra\u00e7ava com a m\u00e3o calosa a medida exata entre a firmeza da terra e a fluidez perigosa da \u00e1gua. Chorava e n\u00f3s, seus netos sens\u00edveis, tamb\u00e9m ench\u00edamos os olhos de l\u00e1grimas. <\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">\u2013 Pedrinho saiu de casa bem cedo, ia visitar um afilhado doente, l\u00e1 no Inxu. Na volta, ficou de passar na vazante, tirar um cacho de bananas e trazer pra casa. Tinha chovido nas cabeceiras do Jardim e o riacho botou \u00e1gua. Me despedi dele na cal\u00e7ada. Ele me beijou primeiro, depois beijou o ca\u00e7ula de seis meses. Nove filhos de cobrir com um balaio, o mais velho com 13 anos. Perguntei se voltava pro almo\u00e7o e ele garantiu que sim. Segurava um bolo de massa puba na m\u00e3o esquerda, pra comer no caminho. Nunca foi homem de fatias, s\u00f3 comia bolos inteiros. \u00c9 verdade que eu assava os bolos em formas pequenas, em latas de goiabada. <\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Nessa passagem do drama ela voltava a chorar e n\u00f3s esper\u00e1vamos em sil\u00eancio ou pranteando, coniventes com a dor. A av\u00f3 nunca alterava uma v\u00edrgula, uma pausa ou marca de choro do seu relato. Era de uma precis\u00e3o matem\u00e1tica, como se tivesse gravado em escrita a hist\u00f3ria elaborada durante anos, at\u00e9 chegar ao texto definitivo, aquele que decidira fixar como verdadeiro. Memorizou-o e repetia as cenas disciplinada, atenta em n\u00e3o introduzir cacoetes ou falas estranhas ao papel.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">\u2013 Deu nove horas e ele n\u00e3o chegou pro almo\u00e7o. Eu olhava da janela e via o c\u00e9u amea\u00e7ando chuva. Vai ver tinha aceitado o convite dos compadres, sempre matavam galinha para as visitas.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>Pedrinho era homem guloso. \u00c0s dez meu cora\u00e7\u00e3o apertou-se. Um vim-vim cantou no p\u00e9 de cajarana e pressenti coisa ruim. Esse p\u00e1ssaro agourento n\u00e3o traz not\u00edcia boa. \u00c0s onze mandei chamar Jo\u00e3o Leandro, o cunhado. Ele chegou com os trabalhadores do engenho. Pararam a moagem, apagaram o fogo dos tachos. Quando olhei o rosto dele, estava branco da cor de um capucho de algod\u00e3o. Me contou que tinha deitado no quarto, dava um cochilo depois do comer, quando escutou a voz chamando Jo\u00e3o, Jo\u00e3o. Reconheceu ser do cunhado, que ele tanto estimava. Abriu a janela e n\u00e3o viu ningu\u00e9m, saiu no terreiro, chamou compadre Pedro, chamou, chamou e nada. Gritou por Eufr\u00e1sia. Eufr\u00e1sia! Alguma desgra\u00e7a aconteceu ao teu irm\u00e3o. Nessa hora o portador bateu palmas e deu meu recado. Eufr\u00e1sia acendeu vela benta, queimou ramo, mas de nada valeu. Eu chamava Pedrinho pelo meio das ro\u00e7as, as meninas chamavam papai, papai, e nada. Os homens se espalharam feito um enxame de abelhas, quando botam fogo na colmeia. Vi de longe os trabalhadores carregando o corpo, deitado numa t\u00e1bua. Nem sei onde arranjaram aquela porta. Precisavam de madeira fornida. Pedrinho era homem grande, pesado.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Na foto em que aparece deitado no interior de um caix\u00e3o, elegantemente vestido num palet\u00f3, as m\u00e3os cruzadas sobre o peito, barba por fazer, olhos bem fechados, n\u00e3o se avaliam a altura e o peso do homem cujo rosto sereno, copiado das fei\u00e7\u00f5es do pai, se repetiu em gera\u00e7\u00f5es de filhos, netos, bisnetos e tataranetos. O retrato emoldurado ocupou o lugar de honra da casa grande de nossa av\u00f3, a parede principal da sala, abaixo da imagem do Cora\u00e7\u00e3o de Jesus, uma litografia su\u00ed\u00e7a do s\u00e9culo XIX, parecendo um \u00edcone russo.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 <\/span>Um lugar justo, precioso na vida de D\u00e1lia, que amou o marido tanto como ao pr\u00f3prio Deus, para quem ela rezava tr\u00eas ros\u00e1rios: um de madrugada, um ao meio dia e outro ao anoitecer. Lugar t\u00e3o definitivo que a fez escolher nunca mais casar, mesmo tendo apenas 30 anos quando enviuvou, mesmo sendo propriet\u00e1ria de terras, possuidora de rara beleza e carecendo dar um novo pai aos filhos. <\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">\u2013 O amor de Pedrinho foi tanto que me bastou. Ainda agora, se fecho os olhos, sinto o gosto dos beijos dele. Digo a voc\u00eas: casem, beijem, porque n\u00e3o tem coisa melhor na vida do que beijar.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Talvez apenas narrar, narrar sempre, num recurso da oralidade em que se empregam os l\u00e1bios, a l\u00edngua e o palato. Atrav\u00e9s da repetida hist\u00f3ria do marido, D\u00e1lia manteve Pedrinho vivo, onipresente como o Todo Poderoso de cora\u00e7\u00e3o sangrante e coroado de espinhos, os olhos virados para o c\u00e9u, os dedos das m\u00e3os apontados para cima. Foi a Sherazade de uma \u00fanica hist\u00f3ria. Gra\u00e7as a sua narrativa viveu l\u00facida, serena e cativante, arrancando \u00e0 morte seu amor eterno, n\u00e3o permitindo que ele a abandonasse, nem largasse a casa ou os ro\u00e7ados.\u00a0<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">No casar\u00e3o, dividido ao meio por parede, havia uma ala interditada, onde se guardaram os pertences de Pedrinho, celas, estribos, arreios, roupas e sapatos. Bastava aos netos entrarem naquele mundo \u00e0 parte que escutavam a voz sem lamento. Para D\u00e1lia n\u00e3o existiam paredes, Pedrinho estava em toda parte e n\u00e3o parava de falar.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Minha av\u00f3 materna narrou a morte de seu marido Pedro Zacarias de Brito 1001 vezes, como se fosse a Sherazade de uma \u00fanica hist\u00f3ria. Considerando os dias e horas de nossa conviv\u00eancia, esse n\u00famero pode ser bem maior. 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