{"id":1000,"date":"2018-04-25T13:43:28","date_gmt":"2018-04-25T16:43:28","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ronaldocorreiadebrito.com.br\/site2\/?p=1000"},"modified":"2018-04-25T13:43:28","modified_gmt":"2018-04-25T16:43:28","slug":"nao-mora-mais-ninguem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ronaldocorreiadebrito.com.br\/site2\/2018\/04\/nao-mora-mais-ninguem\/","title":{"rendered":"N\u00e3o Mora mais Ningu\u00e9m"},"content":{"rendered":"<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Com certeza, n\u00e3o foi na biografia de Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez \u201cViver para Contar\u201d onde li a hist\u00f3ria de um menino que, ao perder a m\u00e3e, teve como primeiro sentimento o de que nunca mais comeria arroz doce, porque era ela quem cozinhava o seu prato favorito. Atrav\u00e9s dessa priva\u00e7\u00e3o, aparentemente insignificante, a crian\u00e7a elabora a imagem da orfandade, de um futuro sem do\u00e7ura. Por que estabeleci uma rela\u00e7\u00e3o entre o fluxo de mem\u00f3ria desencadeado pela perda, como acontece diante da constata\u00e7\u00e3o da morte, e a obra de Garc\u00eda M\u00e1rquez? Talvez, por algum deslizamento explicado pela psican\u00e1lise, ou porque o autor especializou-se no tema, falando sobre ele com humor e tragicidade. <\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Em \u201cCr\u00f4nica de uma Morte Anunciada\u201d, o assassinato do personagem Santiago Nassar \u00e9 revelado j\u00e1 nas primeiras p\u00e1ginas. A narrativa se faz pela reminisc\u00eancia dos acontecimentos que levam ao desfecho tr\u00e1gico, um passado tornado t\u00e3o presente pela recorda\u00e7\u00e3o, que at\u00e9 acreditamos que o final poderia ser alterado, e a morte anunciada acabasse por n\u00e3o acontecer. \u201cCem Anos de Solid\u00e3o\u201d, o romance mais famoso do autor, tamb\u00e9m come\u00e7a com uma reminisc\u00eancia: \u201cMuitos anos depois, diante do pelot\u00e3o de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buend\u00eda havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo.\u201d Em \u201cO Amor nos Tempos do C\u00f3lera\u201d, a personagem Fermina Daza s\u00f3 consegue chorar a morte do marido quando se encontra sozinha com as lembran\u00e7as: \u201cTudo o que era do esposo lhe ati\u00e7ava o pranto: os chinelos de borlas, o pijama debaixo do travesseiro, o espa\u00e7o sem ele no espelho da penteadeira, o cheiro pessoal dele em sua pr\u00f3pria pele.\u201d Chega at\u00e9 a abalar-se com o vago sentimento de que \u201cas pessoas que a gente ama deviam morrer com todas as suas coisas.\u201d H\u00e1 um permanente deslizamento de significados. Pessoas e objetos se confundem e ficamos sem compreender se os mortos s\u00e3o lembrados por eles mesmos ou por alguma met\u00e1fora do que significavam. <\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Os eg\u00edpcios, e at\u00e9 bem pouco tempo os indianos, tinham o costume de enterrar os mortos com suas roupas, alimentos, mobili\u00e1rios, porque acreditavam que eles fariam uso desses bens numa outra vida. Os motivos eram religiosos, e muitas vezes inclu\u00edam o sacrif\u00edcio de esposas, escravos, parentes, animais. Foram encontrados t\u00famulos com at\u00e9 cento e trinta corpos de pessoas, despachadas na companhia dos defuntos. De certa forma, cumpriam o desejo de Fermina Daza, o de levar para o al\u00e9m tudo o que pudesse record\u00e1-los.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Como nos romances e mem\u00f3rias de Garc\u00eda M\u00e1rquez, o que me impressiona no relato das perdas, independente de quem seja o narrador, s\u00e3o os detalhes que cercam os acontecimentos funestos, deixando a morte, o fato em si, num plano secund\u00e1rio. Da mesma forma que o Coronel Aureliano Buend\u00eda n\u00e3o pensou na execu\u00e7\u00e3o, Fermina Daza preferiu imaginar um meio de livrar-se das tralhas do marido, e o menino sentiu falta de quem cozinhasse arroz doce, todos n\u00f3s fazemos o invent\u00e1rio dos nossos preju\u00edzos quando morre uma pessoa amada. <\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">O primeiro sentimento que experimentei quando me avisaram que o m\u00e9dico e music\u00f3logo George Laederman havia morrido, foi o de que nunca mais escutaria m\u00fasica. Ao longo de muitos anos fui usu\u00e1rio da sua cole\u00e7\u00e3o de cds e dvds cl\u00e1ssicos. Nossa amizade se confundia com as sonatas de Beethoven, as cantatas de Bach, os concertos de Vivaldi, as \u00f3peras de Wagner, os bal\u00e9s de Stravinsky. Desenvolvemos um dialeto pr\u00f3prio, um jeito c\u00famplice de nos mover na zorra do mundo, relevando apenas as notas musicais, as sinfonias em que nunca desafinavam violinos do mensal\u00e3o, contrabaixos de para\u00edsos fiscais, fagotes de pol\u00edticos inescrupulosos. <\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Com George Laederman n\u00e3o existia tempo ruim, apenas m\u00fasica ruim. Ele nunca come\u00e7ava uma conversa perguntando \u201ctudo bem?\u201d ou \u201ccomo tem passado?\u201d. Perguntava se eu j\u00e1 tinha escutado uma nova grava\u00e7\u00e3o das partita de Bach, ou se ouvira Nelson Freire tocando os estudos de Chopin, ou \u00e1rias seletas na voz de Kiri Te Kanawa. Se eu o consultava sobre um determinado concerto, ele me oferecia cinco vers\u00f5es diferentes da sua cole\u00e7\u00e3o que, perfilada, ocupava cem metros lineares de estantes, uma apreci\u00e1vel Alexandria sonora. Ao tomar conhecimento da morte do amigo, pensei, como o menino do arroz doce que nunca mais ouviria m\u00fasica, que com ele haviam sido enterradas as belas sonoridades do mundo. Mas todas as m\u00fasicas permaneceram, e nelas, a lembran\u00e7a de Laederman, ou ele mesmo. <\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Existe um escritor peruano, pouco conhecido no Brasil, por conta do isolamento a que foi condenada nossa Am\u00e9rica do Sul, que refor\u00e7a o mesmo ponto de vista de Garc\u00eda M\u00e1rquez sobre a perman\u00eancia das pessoas nas casas e objetos, depois de morrerem. Assim como em Pernambuco ignoramos o que escrevem os poetas cearenses, no Brasil desconhecemos a poesia do Peru, Chile, ou mesmo Argentina. C\u00e9sar Vallejo, grande poeta peruano, escreveu um poema em prosa, intitulado <i>N\u00e3o mora mais ningu\u00e9m<\/i>.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\"><i>&#8230;quando algu\u00e9m vai-se embora, algu\u00e9m permanece. O lugar por onde um homem passou nunca mais ser\u00e1 ermo. Somente est\u00e1 solit\u00e1rio, de solid\u00e3o humana, o lugar por onde ainda nenhum homem passou. <\/i><\/span><\/p>\n<p class=\"p1\"><span class=\"s1\">Sim, as m\u00e3os que mexiam o arroz doce partiram, mas o afeto que impregnava o a\u00e7\u00facar, misturado ao cravo e \u00e0 canela, permanecem eternos. <span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0 \u00a0<\/span><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com certeza, n\u00e3o foi na biografia de Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez \u201cViver para Contar\u201d onde li a hist\u00f3ria de um menino que, ao perder a m\u00e3e, teve como primeiro sentimento o de que nunca mais comeria arroz doce, porque era ela quem cozinhava o seu 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