Um personagem de Natal | Ronaldo Correia de Brito | site oficial
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Um personagem de Natal

Durante o Natal, a imagem do Sagrado Coração da casa de minha avó ficava esquecida e desprestigiada. Ela só cuidava do Jesuscristinho, um menino de madeira rosado e risonho, vestido numa camisa de seda, esculpido lá longe em Portugal, recebido de presente da nossa tia-avó Nizinha. Diferia de todos os Meninos-Deus que conhecíamos, por ser igual aos outros garotos de carne e osso. Debaixo do vestidinho rendado, lá entre as coxas, ele tinha uma pitoca e dois ovinhos.

Minha tia Alzenir achava aquilo uma profanação e tentava por todos os meios esconder a sexualidade do Deus Menino. Pensou em mandar castrá-lo, livrando-se da nossa curiosidade. Todas as vezes que passávamos diante da lapinha, levantávamos a saia do menino e olhávamos o seu sexo, comparando com o nosso. Era difícil imaginar que aquele camarada deitado na manjedoura de palha, em tudo semelhante a nós, crescera e se tornara o Senhor onisciente pregado na parede, vigiando-nos com os seus olhos bondosos, mas severos.

Minha avó confeccionava os enfeites da lapinha com lã de ciumeira e de barriguda. O pouco tempo livre de que ela dispunha, entre os trabalhos e as rezas, ocupava naquele artesanato minucioso, dando vida a carneiros, bois, burros e camelos. As figuras de José, Maria e dos Reis Magos, de louça modesta, eram as mesmas dos outros anos. Mais bonita que a lapinha da nossa avó, só mesmo a das irmãs gêmeas Alice e Alzira, famosas em todo o Crato. O ano tornava-se curto para elas construírem a cidade cenário que ocupava quase uma sala. 

Havia de tudo naquele universo miraculoso: uma Jerusalém reproduzida, montanhas, lagos com cisnes e peixes, exércitos de soldados romanos, vilas, currais, bichos domésticos e selvagens, florestas, campos, pastores e pastoras em profusão, anjos e santos, tudo distribuído nos três níveis: o superior, divino; o intermediário e o terreal. Era impossível imaginar-se alguma coisa que não estivesse representada ali. Uma vez, eu juro, cheguei a avistar uma Marilyn Monroe, seminua, pendurada do galho de uma árvore. 

O cinema trouxe para o Crato o glamour hollywoodiano e a fantasia dos natais com neve e pinheiros. As lapinhas perderam o prestígio, como o catolicismo. Fellini anunciou o fim da mitologia cristã, mas eu teimei em saudar o Jesus pagão da minha infância, em teatro e música, numa festa batizada com o nome de Baile do Menino Deus.

Um dia, convidaram-me no Recife para conversar com uma turma de colégio de classe média. A escola decidira fazer um espetáculo de Natal e os meninos, em torno de vinte, escreveriam o texto. Queriam a minha ajuda, um empurrãozinho. Aceitei e fui ao encontro deles. Eram crianças inteligentes, com certa automação dos jogos de computador e vídeo games.

Propus um começo. Anotaríamos a lista dos personagens do Natal, os mais importantes. Gritaram todos ao mesmo tempo. Pedi ordem. Surgiram os nomes, as figuras famosas das decorações natalinas dos shoppings: Papai Noel, o trenó, as renas, a árvore de Natal, a neve. Estranhei as respostas. Insisti. Lembraram os gnomos, os duendes, a oficina de brinquedos do Gepetto e os anõezinhos de Branca de Neve. Assustei-me. Não acreditava no que ouvia.

– Não é possível! Quem são os verdadeiros personagens da festa de Natal? Aqueles, sem os quais nada teria acontecido.

Todos concentrados.

– Espera aí… Espera aí… E nada.

Não vinha um nome. Apelei.

– Lembrem pelo menos do principal, o mais importante, o que deu origem à noite de Natal.

Por fim, um geniozinho gritou: já sei. Que alívio! Já sei. E com um ar vitorioso anunciou:

– O peru da Sadia.

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