Crônica de um Recife exilado | Ronaldo Correia de Brito | site oficial
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Crônica de um Recife exilado

Às duas da madrugada ninguém conseguia determinar a intensidade e a direção de um vetor de força, apagara da memória as equações lineares de movimento e sentia-se incapaz de dizer o valor do número PI. Estudávamos desde as vinte horas, no apartamento quente e sufocante de um colega de Teresina, na rua Barão de São Borja. Em torno, velhos casarões ainda se mantinham de pé, alguns com a azulejaria portuguesa exibindo sinais de vandalismo, saques para venda em antiquários inescrupulosos. Rua Velha, da Glória, do Progresso, das Ninfas, da Soledade, do Paissandu… A Boa Vista inteira ainda ocupada por moradores que não os de rua, no tempo exato de receber um projeto de reforma urbanística e de habitação, como o das cidades europeias, antes que viesse a sofrer a degradação de hoje.

1969, um ano depois do Ato Institucional Número 5. Ano em que assassinaram o padre Henrique e balearam o estudante de engenharia Cândido Pinto. Alheios a esses conflitos, os dois garotos cearenses e um piauiense, aspirantes ao curso de medicina, saíam para o Recife adormecido, ansiosos pela brisa marinha, que soprava na rua da Aurora. Os perigos? Vivíamos obcecados pelo vestibular, a primeira lei de Newton nos garantia que todo corpo continuaria em seu estado de repouso ou de movimento uniforme em uma linha reta, a menos que fosse obrigado a mudar aquele estado por forças aplicadas sobre ele. Os três rapazes provincianos se moviam no sentido único de alcançar uma vaga, de preferência na Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Pernambuco. Nada os tirava desse movimento uniforme, a não ser a cidade do Recife, deslumbrante aos olhos de quem nunca avistara pontes, rio, palacetes e igrejas com tamanha majestade e profusão.

Descendo pela Conde da Boa Vista, orgulho largo da cidade de becos, caminhando e cantando sem qualquer lembrança de Geraldo Vandré, escutando as vozes e os passos ecoando entre os edifícios, chegávamos à esquina do Cinema São Luiz, onde pescadores arriscavam a sorte com anzóis e redes. Os hippies da contracultura mangue só dariam os ares de graça lá pelo final da tarde, ávidos de atenção e escândalo, mas provocando apenas a curiosidade, as pilherias e o riso dos transeuntes comuns. Conhecidos e emblemáticos, repetiam-se nas seções do cinema de arte Coliseu, no Alto da Sé, em Olinda, nos shows do Teatro do Parque, nos vernissages de artistas plásticos, muitos-muitos naqueles anos de repressão. A margem do Capibaribe no Cais da Aurora – a San Francisco pernambucana – nunca mais foi a mesma sem a fauna embalada pelo toque desafinado de violões e o cheiro transgressor da maconha. Recife romântico dos crepúsculos das pontes, dos crepúsculos que assistiram à passagem dos fidalgos holandeses, que assistem agora aos movimentos das ruas tumultuosas, que assistirão mais tarde à passagem dos aviões para as costas do Pacífico, Recife romântico dos crepúsculos das pontes e da beleza católica do rio. Eu diria beleza caótica, corrigindo os versos de Joaquim Cardozo.

O primeiro elétrico para Casa Amarela, somente às cinco da manhã, com a cidade despertando. Depois de conversar besteiras com os pescadores e de recusar a cachaça bebida em latas, seguíamos para a Av. Guararapes, outro orgulho da metrópole, onde deitávamos em bancos de cimento ou nas muretas que ladeavam o rio, esperando o sol e o elétrico.

O dia se gastava em noites de estudo puxado, felizmente bem poucas, porque nunca fui madrugador nem via futuro nos excessos. Preferia a rotina de acordar às cinco, estudar até o café da manhã, retomar os estudos até o almoço e, no começo da tarde, seguir caminhando para o cursinho na rua Fernandes Vieira. À noite, novo serão que não ultrapassava as dez horas, porque ninguém é de ferro. Morava num edifício com lojas comerciais no térreo, e apartamentos minúsculos em dois andares acima. O prédio resiste de pé e sem benfeitorias, no cruzamento da avenida Norte com a João de Barros, sufocado pelos mesmos ruídos que nos abalavam os nervos. O som de carros, buzinas, vozes, e de uma serraria com máquinas ligadas bem cedo, afugentavam sono e sonhos. A cidade onde as marchas de bloco cantam a poesia das ruas primava pela estridência. E ainda prima, insistindo em manter sua marca registrada.

Os sete rapazes comprimidos na estreiteza de dois quartinhos, uma sala, cozinha, banheiro e área de serviço, num traçado semelhante ao de Lars von Trier para o filme Dogville, se esbarravam nos curtos percursos. Gente do Ceará migrando de territórios amplos, à procura de um destino novo, desde que o campo se esgotara de suas motivações e sobrevivência econômica. Por sorte, no lado de fora da Encruzilhada, nas ruas e nos ônibus para Água Fria, Beberibe, Campo Grande, Bomba do Hemetério, Córrego do Euclides, Águas Compridas e Cajueiro, o Recife se espraiava grande, popular, dançante, ao toque das religiões africanas desprezadas pelo catolicismo conservador.

Hostil e acolhedor, o Recife recebia levas de migrantes a cada estiagem prolongada. Gente do Nordeste pobre. Sempre havia o consolo das águas poluídas do Capibaribe, uma palafita sobre a lama dos manguezais e caranguejos para chupar as patas. Na secura sertaneja, em tempos passados, coisa nenhuma. Por aqui ficávamos, uns procurando estudo, outros desejando emprego ou biscate, na convivência da cidade masculina, paterna, dura e reta, apesar das curvas sinuosas do rio e do traçado das pontes.

Exilando-se de bairros tradicionais como Santo Antonio, São José, Boa Vista e Ilha do Leite para os aglomerados urbanos das praias, o Recife sofreu migrações internas que o tornaram pobre e decadente. Seus novos poetas, cineastas e músicos buscam o lirismo no caos. E ainda encontram onde sugar poesia

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