Glória e lamentação - Martha Graham | Ronaldo Correia de Brito | site oficial
848
post-template-default,single,single-post,postid-848,single-format-standard,ajax_fade,page_not_loaded,,qode-title-hidden,qode_grid_1300,hide_top_bar_on_mobile_header,qode-content-sidebar-responsive,qode-theme-ver-10.1.2,wpb-js-composer js-comp-ver-4.11.2.1,vc_responsive
Martha Graham dançando Lamentation

Glória e lamentação – Martha Graham

Desta vez, a coreografia da bailarina americana Martha Graham se chama Lamentation e ela a dançou no Brooklin, talvez no mesmo ano em que foi criada, 1930. Presa dentro de um tubo elástico de malha, a bailarina se movimenta como se estivesse nos limites da própria pele. A sensação para quem assiste é de claustrofobia.

Martha Graham refere que após a apresentação foi procurada por uma moça de rosto sereno, mas com os sinais de quem havia chorado muito. Ela agradeceu, dizendo que Martha nunca saberia o quanto fizera por ela naquela noite. Quando a bailarina procurou informar-se sobre o que acontecera, ouviu o relato de que a moça vira o filho de nove anos ser atropelado por um caminhão e morrer. Depois disso, apesar do esforço dela própria e das pessoas amigas, nunca conseguira chorar. Quando viu Lamentation, finalmente, o conseguiu.

Martha Graham conclui seu depoimento sobre o caso dizendo: Há sempre pelo menos uma pessoa com quem você pode se comunicar na platéia. Uma.

O artista busca primeiro criar para si mesmo, em seguida comunicar-se com as pessoas do seu tempo. Mesmo que ele crie na perspectiva do futuro, há sempre o desejo desse leitor ou ouvinte ou espectador para quem falará diretamente. Em meio ao deserto que se segue à criação, onde nunca existirá oásis nem descanso, espera-se alguém que foi tocado pela mesma grandeza ou miséria que tocou o artista.

Escrevi certa vez: O escritor busca comunicar-se com seu público: uns de forma serena; outros, desvairados. Correm atrás de quem os leia, ou escute, ou aplauda. Ao mesmo tempo em que precisa do exercício silencioso da criação, de estar sozinho trabalhando, o mundo cobra cada dia mais que ele chegue ao limite de sua resistência, cumprindo uma maratona de conferências, entrevistas e artigos, numa exposição do corpo e da alma para ser visto, lido, cortejado. Poucos sobrevivem ao enigma moderno da esfinge: preserva-te e serás esquecido ou expõe-te e serás devorado.

A Lamentação de Martha Graham representa a angústia do homem tentando romper os limites que o impedem de expandir-se, estender braços e pernas, por a cabeça de fora, dar novo alcance às idéias e pensamentos. O útero claustrofóbico é aliciante, convida à inércia, à acomodação. A distensão e o choro só acontecem no esforço de ir além dos limites da própria pele.

Vista oitenta anos depois, a coreografia de Martha Graham parece tão simples. No entanto, quanta ousadia para a época, uma quebra dos cânones do balé clássico. O artista precisa romper limites, os seus e os de quem recebe sua arte. Mesmo que demorem a percebê-lo.  É necessária a fé de que uma pessoa na platéia, uma, será tocada pela grandeza ou miséria da criação. E aí, o artista nunca mais estará só.

Tags:
, ,
No Comments

Post A Comment